Um pouco da
História dos Restaurantes e da Alta Cozinha Francesa
Virgínia Brandão
Há muitos séculos, a
cozinha francesa vem mantendo a primazia no cenário gastronômico
mundial. Desde o final da Idade Média, época a que remonta a tradição
dos "Banquetes de Estado" que fizeram a fama do Palácio de Versalhes e
cujos pratos eram concebidos e apresentados de modo a realçar as
ambições e divulgar a grandeza do anfitrião e de sua terra, os
cozinheiros franceses já eram considerados os melhores nessa arte e
seguiram se aprimorando até hoje.
Tanto se aprimoraram que, a partir do século 18, mais exatamente da
Revolução Francesa, que Paris passou a ser considerada a Capital
Gastronômica do Mundo, concentrando recursos culinários de todas as
espécies: os melhores cozinheiros, os melhores e mais diversificados
ingredientes e os paladares mais sensíveis estavam em Paris. As
províncias francesas contribuíam para a glória da cozinha nacional
enviando à Capital seus presuntos, salsichas, queijos, peixes, aves,
ervas aromáticas e, até mesmo, tortas.
Paris foi ainda, nessa mesma época, berço de uma outra revolucionária
novidade no campo da alimentao quando, em 1765, Monsieur Boulanger, um
vendedor de sopas, um homem de marketing nato, resolveu colocar em seu
estabelecimento da Rue Bailleul, perto do Louvre, algumas mesas à
disposição de seus clientes que, até então, tomavam seus caldos
restauradores (bouillons restaurants) em canecas e em pé.
Depois disso, diante do número cada vez maior de pessoas que por causa
da Revolução chegavam de todas as partes a Paris, Monsieur Boulanger,
homem atento às necessidades de sua época, começou a se perguntar onde
poderiam elas se alimentar além das tabernas com suas rústicas e pouco
variadas opções (a corporação de oficio dos taberneiros detinham o
monopólio do food service naquela época).
E, foi assim, que Monsieur Boulanger passou dos caldos a uma variedade
de pratos sólidos servidos em porções individuais, no que foi seguido
por um grande número de imitadores que, para se diferenciarem da
concorrência mais antiga, passaram a se auto denominarem "Restaurants",
adotando o nome do caldo nutritivo que, supostamente, "restaurava" as
forças.
Foi dessa maneira que, nos anos que antecederam a Revolução Francesa,
surgiu um novo profissional, o Restaurateur, e um novo tipo de negócio,
o Restaurante, cuja evolução histórica e importância econômica viriam a
ultrapassar qualquer expectativa possível aos homens daquele tempo, até
mesmo a Monsieur Boulanger.
Entretanto, Monsieur Boulanger e seus imitadores estavam estabelecidos
em lugares simples e modestos e serviam uma comida que, embora melhor e
bem mais variada que a das tabernas, era ainda muito rudimentar, não
atendendo, em absoluto, às expectativas de pessoas oriundas da
aristocracia e das camadas superiores ou instruídas do Terceiro Estado
que, vindas das províncias, afluíam à "efervescente" Paris revolucionária
interessadas em conservar em suas refeições uma certa linha gastronômica
a qual estavam acostumadas.
Foi exatamente nesse ponto, que a Revolução veio a influenciar
decisivamente o desenvolvimento da Haute Cuisine Francesa por ter
deixado desempregados inúmeros Chefs cujos os antigos patrões, membros
da alta nobreza, fugiram de Paris. Estes Chefs, obrigados a encontrar
uma outra maneira de continuar a realizar o seu trabalho, acabaram
abrindo seus próprios restaurantes e tornando a cozinha artística dos
grandes mestres, antes só encontrada nas residências dos ricos e
poderosos, acessível ao público comum, aos simples plebeus que, claro,
pudessem pagar por ela.
Nascia, assim, o "Grand Restaurant", um produto autenticamente francês e
desconhecido até então, com uma cozinha superior, um salão elegante,
garçons eficientes e uma adega cuidadosa, cujo conceito de qualidade,
classe e bom atendimento, espalhou-se por toda a Europa e depois por
todo o mundo. A partir daí, toda uma cultura culinária começou a
florescer. Desenvolveu-se uma verdadeira "ciência da mesa", e em 1801
foi criado o termo Gastronomia, para designar o que Montaigne chamava de
"ciência da gula".
Vários fatores - a concentração de recursos, o ambiente receptivo, a
audiência educada para apreciar a gastronomia, a proliferação de
estabelecimentos prestigiosos - se combinaram para fazer da cozinha
francesa sinônimo de excelência e marca registrada da civilização
ocidental. Entretanto, tudo isso não teria sido suficiente não fosse o
talento natural da França para gerar grandes Chefs, seres capazes de
mudar nossa percepção do sabor, assim como os artistas mudam nosso modo
de enxergar o mundo.
Na França os cozinheiros são respeitados, os Chefs são admirados e os
Grands Chefs são honrados tanto quanto os chefes militares ou
estadistas. Os franceses vêem sua cozinha como um monumento erguido por
gerações de Chefs, todos trabalhando para melhorar o que herdaram.
Atualmente, a cozinha francesa está mudando. Paris perdeu sua posição
preeminente. A realidade econômica deste fim de século tem levado à
reformulação do conceito dos Grands Restaurants. Os maiores Chefs
preferem trabalhar em povoados montanheses ou cidades do interior,
desenvolvendo uma cozinha cada vez mais personalista.
Mas hoje, assim como em épocas anteriores, os elementos que contribuíram
para enaltecer a cozinha francesa continuam presentes. A culinária
mantém o status de arte, uma arte em constante processo de
aperfeiçoamento, com "grandes mestres" e regras próprias, e a
gastronomia é homenageada como parte da herança cultural nacional.
Ao longo de séculos, Chefs franceses têm se espalhado por todos os
cantos da Terra, difundindo a cultura de seu país e perpetuando a arte
dos grandes Chefs ao lado dos quais aprenderam. Mas, na verdade, fazem
bem mais que isso, pois ao compartilharem seus conhecimentos e seus
talentos artísticos com os profissionais nativos, eles contribuem de
forma decisiva para o desenvolvimento de uma cultura gastronômica nos
países onde se instalam.
E assim, de geração em geração, pela disposição de seus Chefs em
questionar o passado, inovar, rever e criar, novos estilos continuam a
surgir e a cozinha francesa continua dinâmica, incendiando paladares e
garantindo sua inigualável reputação em todo o mundo.
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Café Le
Procope - o primeiro de Paris,
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Cozinha Francesa,
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Be-a-bá de
um cardápio
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Chefs de Cozinha,
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Histórico
dos Maîtres Cuisinier de France,
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