Michel Chabot
Partamos de uma constatação:
a França é a pátria por
excelência das artes da mesa
e, em primeiro lugar, dos
alimentos terrestres. De
onde vem essa gulodice e
esse verdadeiro culto ao
bem-comer - e ao bem-beber -
erigido como arte nacional?
Por que e como a gastronomia
desabrochou na França a
ponto de se tornar uma
referência universal? A
culpa recai, principalmente,
sobre os gauleses, a Igreja
e Luis XIV...
Para explicar a posição
central que ocupa a
gastronomia na França, o
historiador Jean-Robert
Pitte, em sua admirável
Gastronomia Francesa, não
hesita em remontar até os
ancestrais dos franceses, os
gauleses. Assunto de mesa?
Não somente, porque "na
Gália, a boa carne é
inseparável da vida política
e social’ e é sobre esse
axioma que vai ser
construída a tradição
gastronômica francesa.
Desde o início da era
cristã, o geógrafo grego
Strabon e o viajante latino
Varruo confirmam "a
excelência da alimentação
gaulesa", principalmente de
seus famosos frios. Depois
da conquista romana, os
gansos do norte da França
gozam de uma reputação tão
boa que os serviçais
encaminham-nos a pé e aos
bandos até Roma. A partir
dessa época, a Gália
torna-se também um país
exportador de queijos. Essa
"cozinha rústica e copiosa
receberá um polimento sob a
influência romana", assinala
a professora universitária
Julia Csergo, especialista
em cozinhas regionais
francesas.
Segundo J.-R. Pitte, "não é
absurdo formular a hipótese
de uma filiação entre o
interesse marcante dos
qauleses pela alimentação e
a gula francesa". Amantes de
alegres libações, eles
desenvolveram um formidável
apetite e legaram aos
franceses essa tradição de
convívio à mesa que
atravessa os séculos,
chegando até nós. As
refeições campestres e as
cerimônias de casamento no
campo possuem sem dúvida uma
ligação com os costumes
gauleses. Esse senso da
festa, que ganhou em
refinamento ao contato com
os costumes romanos, mais
polidos, não se alterou na
Idade Média e com as
invasões germânicas que se
iniciaram no século V de
nossa era. "Ao contrário,
segundo J.-R. Pitte, estas
últimas acentuaram a idéia
de liberdade na preparação
dos pratos e o prazer das
libações foi reforçado."
Uma tradição entre
convívio e prestígio
No que se refere ao sabor, o
hábito muito antigo de
consumir vinhos, como
acompanhamento para os
alimentos ou em molhos,
embora não seja exclusivo à
França, representa um fator
importante na educação do
paladar. Segundo o chef
alsaciano Ernile Jung, "um
molho ao vinho apresenta uma
harmonia complexa de ácidos
que estimulam o
aperfeiçoamento. Por outro
lado, o vinho estimula o
apetite e torna os pratos
ainda mais atraentes". A
França foi alçada a um dos
primeiros lugares na
qualidade dos vinhos, cujo
desenvolvimento se deu
paralelamente aos progressos
técnicos constantes a partir
cio século 17, sob a
influência,
principalmente... dos homens
da Igreja e das ordens
monásticas. Foi aliás graças
a eles que a viticultura
pôde perdurar durante os
períodos de invasão da alta
Idade Média.
Nessa época, a cozinha
francesa ainda não se
distinguia da dos outros
países da Europa. É verdade
que as diferenças são mais
de ordem social do que
geográfico. Assim, algumas
similaridades são percebidas
nas cortes
pré-aristocráticas das
cidades do imprio
carolíngio. Consome-se
essencialmente, no que é
então a França, alimentos de
origem vegetal; come-se o
pão duro e ele constitui a
base de uma espécie de sopa
(o "brouet") enriquecida, na
época, com pedaços de
toucinho. Os queijos no
entanto são extremamente
difundidos e seu uso é tão
banalizado que eles não
figuram entre os pratos
preferidos das festas, que
são o pavão ou o cisne. A
cozinha medieval é
caracterizada pelos binômios
açucarado-salgado,
azedo-doce, o não gorduroso
e as especiarias.
Com o Renascimento e a
descoberta de novos
continentes, os legumes
originários das Américas
surgem na Europa. Os
feculentos (feijões, batata
- depois de um longo
purgatório -, mas também o
milho) vão suplantar as
favas, especialmente na
França, ao longo rios
séculos 16 e 17. A invasão
de novos produtos, a começar
pelo "coq d’lnde" - o peru -
que destrona o pavão já no
final do século 16, vem
acompanhada de uma revolução
nas maneiras (uso do garfo e
introdução da sala de
jantar, que só se tornará
generalizaria no século
19...).
Se a "gastrolatria",
sinônimo de glutonatria, tão
cara a Rabelais, o autor de
Pantaqruel (1552) é atenuada
a partir do século 16 -
apesar do grande número de
festas agrárias ou
litúrgicas que são pretexto
para os rega-bofes -, as
noções de gula e depois de
gastronomia são forjarias em
torno da idéia mestra de um
prazer ligado a uma mesa
prazerosamente partilhada.
Foi preciso, no entanto, que
o excesso de beber, assim
como o de comer, fosse bem
forte, para resistir ao
despertar da consciência
individual, pessimista,
austera, que se espalha pela
Europa com a Reforma, no
inicio do século 16. Mas é,
justamente, porque a gula
desempenha um papel de
válvula em relação a outros
vícios, considerados mais
graves, que a Igreja
católica mostra-se tolerante
na França com relação a esse
"pecado". Paralelamente, o
desenvolvimento da imprensa
vai permitir uma ampla
difusão rias obras dedicadas
à cozinha, embora seja
necessário esperar o século
19 para encontrar neles
orientações sobre o tempo de
cozimento e as proporções.
Mas, a verdadeira explosão
da culinária francesa é
operada na realidade dentro
de um quadro político: o da
monarquia absoluta e
centralizadora, que conhece
seu apogeu sob o reinado de
Luis XIV no século 17. A
concorrência dos pratos e
dos preparos reflete a
estrutura política piramidal
que remonta à pessoa do rei.
As refeições suntuosas,
apresentadas de maneira
teatral, tornam-se um
elemento de glorificação do
soberano, enquanto na
Itália, por exemplo, onde os
centros de decisão política
continuam sendo regionais, a
mesa permanece circunscrita
aos ducados e a Veneza, a
"Sereníssima".
Luis XIV e o século 17
consagraram na França a
importância ria etiqueta
(conjunto de regras de uso e
precedência em vigor na
corte) e do bem-comer.
Saint-Simon, cronista da
vida da corte, presta
homenagem a esse monarca de
grande apetite, que estimula
o serviço à francesa (todos
os pratos são servidos ao
mesmo tempo e a disposição
dos convivas respeita um
plano de mesa bem preciso)
com um decoro inédito. E a
época em quee La Varenne
publica O Cozinheiro Francês
- com uma tiragem de 100.000
exemplares — seguido de
Massialot, que estrutura as
receitas e propõe um modelo
francês exportável para os
meios burgueses e as cortes
estrangeiras. Para o
historiador Anthony Rowley,
foi Luis XIV quem conferiu à
gastronomia sua supremacia
nacional. Devemos também a
ele ter cultivado a arte da
conversa à mesa, porque, na
França, não se valoriza
apenas o prazer de comer,
mas também o de falar dele,
prática que muitas vezes
surpreende os estrangeiros.
Até a Revolução de 1789 (e
mesmo muito além disso), a
corte da França é, portanto,
o laboratório da grande
cozinha e a mesa um meio de
governo e influência
política. Isso é verdadeiro,
do banquete extraordinário
que Francisco I oferecera,
em 1520, no Camp du Drap d’Or,
para impressionar Henrique
VIII da Inglaterra, com
vistas a urna aliança contra
o imperador Carlos V, às
festas napoleônicas
dedicadas aos políticos
Cambacérès e Talleyrand, que
não hesitará em declarar aos
chefs: "Os senhores,
salvaram a França!" A arte
da mesa contribui, ainda
hoje, através das recepções
diplomáticas, para as
questões políticas.
Paris, capital da
gastronomia
A outra grande revolução em
matéria de gastronomia data
do final do século 18,
quando o cozinheiro francês
Antoine Beauvilliers abre,
em Paris, na Rue Richelieu
26, o primeiro verdadeiro
grande restaurante da
cidade, o "La Grande Taverne
de Londres", com salões
elegantemente decorados,
serviço perfeito e,
sobretudo, uma cozinha
espetacular e uma adega
admirável. É um sucesso,
amplificado entre 1790 e
1814, quando os chefs das
casas aristocráticas,
privados de seus empregos
depois da fuga para o
exterior de seus patrões,
abrem seus restaurantes. Foi
assim que, sob a influência
da Revolução Francesa, a
grande cozinha desceu às
ruas.
No que se refere ao sabor,
os aromas franceses (échalote,
cebolinha), mas também as
anchovas e acima de tudo a
trufa, substituíram as
especiarias a partir do
século 17. A oposição entre
o salgado e o doce - este
último tendo sido
introduzido na cozinha
francesa no século 16, sob a
influência dos italianos -,
continuará sendo uma das
principais características
do sabor francês até o
século 20. Mas é,
principalmente, o uso da
manteiga, utilizada
primeiramente pelos
italianos na cozinha nobre,
que se torna o símbolo
distintivo da grande cozinha
francesa.
Foi assim, que a cozinha
rica e burguesa da IIIa
República (1870-1940), feita
de banquetes e cardápios
intermináveis, perpetuou-se
até os anos 70, com o
surgimento da "nouvelle
cuisine", preocupada com a
dietética. Dois críticos,
Christian Millau e Henri
Gault, lançam os seus dez
mandamentos, em 1973,
pedindo aos chefs que
inovem, tornem mais leves os
molhos, preservem o sabor
dos produtos e abram espaço
para as cozinhas
estrangeiras. Essa revolução
estende-se a toda a
sociedade da Europa em
apenas quinze anos. Paul
Bocuse, os irmãos Troigros,
Alain Chapel, André Pic...
serão os mestres de obra.
Depois de urna geração,
muitas vezes de excessos, a
grande cozinha francesa
esboçou um retorno, no final
dos anos 80, aos produtos
autênticos da terra, sem, no
entanto, renunciar às lições
de finesse da nouvelle
cuisine.