HISTÓRIA
Os Incas – a cozinha quéchua
No
século 15, o Império Inca, formado a partir de culturas anteriores, já tinha
um sistema de agricultura engenhoso que utilizava plataformas (andenes) e
irrigações para o cultivo das plantações nas inclinações andinas e nos vales
dos rios do litoral.
A
batata era o alimento mais produzido no Império Incaico e elemento básico
para o preparo de sopas e da Pachamanca (pacha = terra, manca = mãe), uma
mistura de carnes e verduras cozidas com pedras quentes em uma fossa coberta
de terra. As batatas que sobravam da Pachamanca eram secas e, depois, quando
reidratadas, eram cozidas em um ensopado chamado Carapulcra (kala = pedra
quente, purka = buraco na terra), servido até os dias de hoje nas mesas
peruanas.
Outro alimento importante na
vida andina era a quinua. Considerada sagrada pelos Incas, que a chamavam de
“grano madre”.
Os
conquistadores trouxeram novas espécies de animais e plantas, que se
integraram à vida dos indígenas e fizeram surgir uma nova cultura: “a comida
criolla”. As carnes de frango, cabrito, vaca e carneiro trazidos pelos
espanhóis se juntaram à da llama, da alpaca, cuy (coelho da índia), lebres e
vários tipos de aves nativas. O arroz, o trigo e a cevada foram introduzidos
na América Latina junto com azeitonas, óleos, vinagres, condimentos e uma
grande variedade de verduras e frutas, principalmente a uva. Os
conquistadores europeus trouxeram, também, o forno e diferentes técnicas de
cozinhar, curtir e fritar.
Essa
nova cozinha, resultado do sincretismo dos ingredientes e técnicas dos dois
continentes evoluiu através dos anos até o presente, formando a atual comida
peruana. Por exemplo “La Ocopa”, que é uma maionese da cidade de Arequipa, é
uma mistura do amendoim e da pimenta pré-colombianos com adição de produtos
lácteos (queijo fresco) trazido pelos espanhóis.
Na
época pré-colombiana, existia no Peru
um
animal que é parente da galinha que conhecemos hoje. Era conhecido com o
nome de “hualpa” e cozido com aji (pimenta). O hualpa era muito importante
na culinária e na vida incaica, tanto que o último inca, executado pelos
espanhóis, levava o seu nome, Atahualpa. “El aji de galina” (feito
com pão velho, leite, pedaços de frango, queijo e várias pimentas, uma
espécie de fricassê de frango)
é o
exemplo perfeito da fusão dos ingredientes espanhóis e quéchuas. O pão, as
nozes e o queijo, somado ao frango e a pimenta deram a este prato uma
dimensão internacional.
Segundo o Centro Internacional da Batata, em Lima, os Incas cultivaram mais
de mil variedades do tubérculo. Muitas delas já desapareceram, porém, ainda
existem, na serra peruana, numerosos tipos de batatas silvestres que são
cultivadas em áreas rurais. Pizarro e os conquistadores espanhóis foram
responsáveis por levar este alimento para o resto do mundo.
O
mais importante dos cultivos incaicos foi o milho, ingrediente básico da
cerveja andina a “Chicha”, feita por mulheres sob a vigilância da deusa do
milho Mamasara. Atualmente, ainda se pode ver algumas "chicheras", que
seguem a tradição antiga de macerar o milho, fervendo com água, agregando
pedaços de carvão para espantar os espíritos malvados e fermentando a chicha
em jarros de barro, de fundo redondo, colocados em cestos de totora ( junco
que nasce às margens do lago Titicaca).
Entre as heranças mais significativas dos Incas na comida contemporânea
peruana, estão os diferentes tipos de pimentas, como Aji e Rocoto, e de
ervas, como o “Huacatay”.
Os mouros, os espanhóis e os africanos.
Durante os primeiros 150 anos da presença espanhola na América do Sul, Lima
transformou-se em um dos centros de maior importância político-social. Os
espanhóis trouxeram os refinamentos da Corte espanhola ao Peru. Com as
riquezas existentes e o grande número de nativos e escravos que eram usados
como mão-de-obra, a classe dominante dos espanhóis dedicava-se ao ócio e ao
repouso constante, podendo desfrutar das riquezas que a nova terra lhes
apresentava.
A
maioria dos primeiros conquistadores espanhóis era formada por nativos da
Andaluzia região ao Sul do país, ocupada durante setecentos anos pelos
mouros. Por influência destes povos árabes foram levados para o Peru o
cominho, o coentro, a canela e outros condimentos usados pela culinária
criolla.
A
chegada da cana-de-açúcar foi uma surpresa deliciosa para os peruanos e um
complemento perfeito para suas ervas e especiarias, razão pela qual o
consumo de açúcar foi muito grande. Os conventos foram os grandes
especialistas na elaboração de doces e sobremesas, cada um deles tinha a sua
especialidade. Ainda hoje, os doces peruanos são europeus com um toque
africano.
As
características principais destes doces eram as suas cores vibrantes e os
formatos trazidos pelos escravos africanos, que eram os cozinheiros das
famílias do vice-reinado. Os peruanos adotaram os ritmos da música e das
danças africanas, as especiarias e os condimentos aromáticos que, junto com
o milho de origem incaica, resultou em uma perfeita combinação, como “El
manjar blanco” e “la Natilla”. Os escravos também criaram os “anticuchos”
e o "tacu-tacu" - prato corriqueiro em Lima, feito com arroz, feijão,
banha de porco e pimenta.
Os franceses e os italianos
No
dia 28 de julho de 1821, foi declarada a independência do Peru, e em 1824,
após inúmeras batalhas, o último soldado espanhol deixou as terras peruanas.
Neste período, por causa da revolução francesa, os peruanos passaram a olhar
com admiração para este país europeu, identificando-se com os ideais de
"liberdade, igualdade e fraternidade" com os quais a França tinha derrubado
a sua monarquia.
A presença francesa trouxe uma
grande contribuição para a gastronomia peruana (como mousse, por exemplo) e
para os
e os
hábitos gastronômicos do peruanos.
Outra imigração muito importante, ocorrida na segunda metade do século 19,
foi a italiana, que popularizou o uso do macarrão, da torta de acelga, doces
e sobremesas como o panetone, iguaria obrigatória nas festas natalinas por
todo o país.
Depois de declarada a independência, o general San Martín emitiu um decreto
permitindo a entrada de estrangeiros no Peru. Em 1857, existiam 20 mil
europeus que não eram espanhóis morando em Lima, incluindo franceses,
escoceses, ingleses, alemães, italianos e, também, cidadãos da maioria dos
países escandinavos e do resto da bacia mediterrânea.
A
mística Ásia representada pela China
A
chegada, em 1849, dos primeiros chineses contratados para trabalhar nas
estradas de ferro, nas fazendas de cana-de-açúcar e algodão e na indústria
do “guano” (esterco das aves marinhas, utilizado como fertilizante natural
na agricultura) produziu um grande impacto na comida peruana durante os
séculos 19 e 20.
Os
imigrantes chineses, que vinham principalmente de Macau, viviam em condições
péssimas. Os contratos de trabalho obrigavam o contratante a fornecer uma
certa quantidade de alimentos e uma quantidade fixa de aproximadamente um
quilo de arroz como parte do salário. Os chineses mantinham suas tradições
culinárias em suas casas.
Os
imigrantes chineses importavam sementes, desde o “jolantau” (ervilhas
chinesas) até o “chion” (gengibre) e o “sillao” (molho de soja). Depois de
cumprirem seus contratos, assentavam-se nas cidades do litoral, abrindo
pequenos estabelecimentos de comida. Assim, outra vez, a comida peruana
recebeu a influência de novos sabores.
Logo
os peruanos aprenderam a gostar da nova comida, simples e saborosa e que era
vendida nas ruas próximas ao mercado central, onde atualmente é o bairro
Chinês. Um dos pratos que misturou influências da China e do Peru é o “Lomo
Saltado”. A técnica de saltear a carne chegou ao Peru na segunda metade do
século 19 e colocaram na mesma panela o “ají” peruano junto com o “chion” e
o “sillao”. Uma prova da importância da culinária chinesa no Peru é o fato
de que, depois de 50 anos da chegada dos imigrantes, praticamente todas as
famílias ricas e elegantes de Lima tinham um cozinheiro chinês.
A
culinária da Terra do Sol Nascente
Em
1899, chega ao Peru o navio “Sakura Maru”, trazendo 790 imigrantes
japoneses. Estes imigrantes deixaram marcas definitivas na gastronomia
peruana. Da mesma forma que os chineses, os japoneses chegaram sozinhos para
trabalhar nas fazendas do litoral e também tiveram que trabalhar arduamente
no campo. Porém, na década de 20, trouxeram suas famílias e permaneceram no
país.
Foi
nesta época que surgiram os primeiros restaurantes japoneses e a cozinha
peruana incorporou o shoyo e o missô. As famílias japonesas comiam peixe,
carne que os peruanos não costumavam comer nos anos 20 e 30. No final da
década de 50, já existiam em Lima alguns restaurantes japoneses que serviam
pratos de peixe e mariscos frescos.
Embora os Incas já comessem cebiche marinado em “chicha” (espécie de cerveja
proveniente da fermentação do milho) e vários sucos ácidos de frutas, foi
com a introdução do limão e da cebola pelos espanhóis e de outras formas de
consumo de peixe pelos japoneses que surgiu o tradicional cebiche
peruano que conhecemos hoje em todo o mundo.
Em Lima,
existem diversos restaurantes que só servem cebiche, as cebicherías. E, para
atender a todos os paladares, disponibilizam inúmeras versões do prato. Uma
das variantes mais conhecidas é o tiradito, que não leva cebola. Outra
variação que merece registro, também, é o cebiche de frutos do mar, que,
além do peixe, pode levar polvo e camarões.
A cozinha do momento, porém, é a Nueva Cocina Andina, que combina aromas e
sabores da terra e técnicas estrangeiras. Jovens chefs passaram a estudar em
países como França e Itália e retornaram ao Peru com nova bagagem, aplicada
aos ingredientes locais, dando uma nova feição à cozinha tradicional.
Algumas criações nessa nova linha incluem espuma de quinua e guanábana
(fruta parecida com chirimoya), antojos (petiscos) de queijo em molho de
maracujá, salada fresca de escargot com quinua, flan de queijo e flocos de
cevada.