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Filosofia de bar

 

Quem não gosta de encontrar os amigos para uma rodada de cerveja no bar, ou sentar-se a uma farta mesa, para trocar boa conversa, enquanto aprecia o repasto na companhia insubstituível dos vinhos? Desde que o mundo é mundo, civilizações e sociedades sempre consagraram ao comer e beber em grupo, a expressão máxima de qualquer comemoração – aliás o vocábulo ‘comemorar’ por si só já explica o fato...

 

Pois bem, praticar essa arte da sociabilização, da confraternização, em muito estimulada pelos drinques, anda cada dia mais sujeita a controles e limitações dos órgãos da lei. É o Estado determinando e regulando o que convém ou não ao cidadão, justamente nas circunstâncias em que ele tem para aproveitar seu direito ao lazer – o encontro pelos bares e restaurantes da vida...

 

Este é o tema pertinente discutido em oportuno artigo, assinado pelo advogado Percival Maricato, presidente da Regional de S. Paulo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes – ABRASEL – SP. Percival Maricato, com longo currículo em defesa do setor de alimentos e bebidas fora de casa (setor que hoje no País congrega cerca de um milhão de empresas e que gera seis milhões de empregos diretos,  representando 2,7% do PIB brasileiro) ‘filosofa’ sobre o hábito social que direta ou indiretamente interessa e atinge a todos nós, cidadãos livres, de democracias urbanas e contemporâneas... > Leia na íntegra, aqui nas páginas do Correio Gourmand

 

 

 

CRIMINALIZAÇÃO DO BAR E DA BEBIDA: UMA EXPLICAÇÃO HISTÓRICO-FILOSÓFICA

 

 

por Percival Maricato

Presidente da ABRASEL SP

 

 

Bar e bebida relacionam-se à liberação dos instintos, desejos sexuais, impulsos inconscientes, paixão, amor, celebração da vida, Dionísio. Ir ao bar, tomar chopinho, socializar-se, vale mais que remédios e sessões de psiquiatria. Desde a antiga Suméria, passando pelos demais impérios de antes de Cristo: babilônico, assírio, egípcio, grego, macedônico, cartaginês, romano (aC e dC) discute-se a liberação e limitação do consumo de bebidas alcoólicas e de condutas sociais. Houve épocas mais liberais e mais repressivas. O surgimento de religiões monoteístas reforçou o viés conservador e moralista.

 

Atualmente vivemos em tempos de mudanças civilizatórias profundas, com obstáculos reais e imaginados, difíceis, inconstantes, mutáveis, relações frágeis e dinâmicas, em que costumes padrões de conduta e  valores são descartáveis, o que, porém, nem sempre deve ser confundido com a liberação saudável de sentimentos.

 

A religião, antes principal esteio da ordem social, a lembrar sempre a recompensa do céu, enfraquece-se à medida que a ciência explica os fatos da existência da vida e do cosmos. O dito por Nietzsche e repetido por Sartre, Deus morreu, impregnou a sociedade, tem milhões de adeptos, sem céu ou inferno nos esperando melhor vivermos esta vida, carpe diem, ensinavam os romanos, seja feliz e aproveite cada momento.

 

Soma-se ainda para a instabilidade social a criminalidade violenta que cresce a cada dia, a instabilidade econômica e a corrupção das elites empresariais e políticas, o cada vez maior, o número de países com armas nucleares, a resistência de certas epidemias, o terrorismo.  A insegurança com relação ao futuro reforça um  desejo de todos: viver o aqui e agora.

 

A economia de mercado faz sua parte, transmudando o ser em ter. Ter é poder. A felicidade está em ter status, consumir, dominar, subir na hierarquia, andar no carro e com roupas da moda, viajar a cada ano para o exterior.

 

Quem pode mais sobe e... Descobre o vazio. Quem pode menos fica frustrado. Muitos que sobem e os que descem encontram saída no caminho das drogas, que espreita principalmente os jovens. Elas estão fáceis e acessíveis, substituem a complexidade da realização profissional e humana.

 

Nesse quadro, como não ter medo e insegurança? Como não querer ordem, organização, por parte dos mais conservadores, idosos, privilegiados, os que ainda controlam as instituições, chegam aos parlamentos e seus privilégios?

 

Bom mesmo é ter uma sociedade bem comportada, segura, acabar com a corrupção, a criminalidade, o tráfico de drogas. Mas, se isso é impossível, por que não agir na parte da sociedade onde ainda se tem poder?

 

A restrição ao consumo do chopinho ou a vida no bar, libertadora de instintos e sonhos, está na esfera de poder do Poder. Eis aí o porquê de tantas leis repressoras sobre o boteco, eis o porquê do risco que precisa ser enfrentado. Os vereadores de Xiririca da Serra nada podem fazer contra as drogas violentas a que se atiram os jovens, mas pode proibir o bar de ficar aberto à noite. E fazem questão de mostrar o quanto são poderosos, no mínimo conseguem uma nota no jornal quando o fazem, justificando a remuneração licenciosa.

 

Em vez do perigoso Dionísio, entra Apolo: disciplina, organização, prevenção, repressão. Apolo e Dionísio são criações gregas, mas como dito, desde as antigas civilizações já se estranhavam. No Brasil, podem ser lidos ou vistos em Dona Flor e seus Dois Maridos, de Jorge Amado (as figuras do malandro vadio, irresponsável, mas encantador Vadinho e do chato previsível, mas, responsável farmacêutico).

 

No entanto, é preciso sonhar, resistir, manter nossos bares e nosso direito a comemorar amizades, o chopinho, a cachaça, o amor, os instintos - até porque sem nos soltarmos de vez em quando, sem nos socializarmos, não há saúde mental possível. Sem abandonarmos o ser ao enquadramento total, desapareceremos, será a não vida. Não podemos ser e fazer tudo que nos vem à cabeça (id), mas muito menos comandados inteiramente pelo outros (superego), ambos devem ter seu momento. Ser apenas o ser da conjuntura é insuportável, até para nós mesmos; não crescemos, não superamos nossas limitações, o vazio e o tédio da rotina obrigatória de trabalho ou estudos. De vez em quando, é preciso ousar, sonhar, e tentar realizar o sonho.

 

Em nós e em nossa sociedade, temos que dar lugar a Apolo e Dionísio. No momento, melhor apoiar este último, pois o pessoal pró Apolo está exagerando.

 

 

Dr. Percival Maricato

Presidente da Abrasel SP

julho/2015

 

 
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Atualizado em: 02 janeiro, 2018.

 
 

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