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HISTÓRIA DA
CONSERVAÇÃO DOS ALIMENTOS
Até o período
Neolítico (idade da pedra polida), há cerca de10 mil anos, o
homem só comia alimentos frescos, isto é, caçava ou coletava sua
refeição para satisfazer sua fome imediata. Essas populações eram nômades
e não armazenavam alimentos para serem consumidos num futuro
próximo, vivendo de um lado para o outro em busca de locais onde a
caça e a coleta fossem mais abundantes.
A partir do
momento em que a população humana se fixou em uma certa área e começou
a plantar e a criar animais, houve uma melhora no suprimento de comida
da comunidade. Essa mudança na forma de obter o sustento alterou os
hábitos alimentares da população, que passou a contar com um excedente
de produção que poderia ser consumido nos períodos de escassez.
Iniciou-se aí, uma
busca incessante do homem por formas de conservar esses alimentos
excedentes A observação e a experiência
ensinaram que o frio os conservava melhor. Já no período Neolítico,
ele elegia a parte mais escura e fresca da sua caverna como armazém.
Com o fogo, aprendeu a defumar e com o sol e o ar aprendeu a secar sua
comida. Buscando formas de preservar os alimentos, introduziu-os em
recipientes e envolveu-os com substâncias protetoras como a argila, o
mel, o azeite, o vinho, o vinagre, a gordura. Também aprendeu a salgar
e secar carnes e pescados (acredita-se que a primeira salga foi
realizada enterrando-se o alimento na praia, onde a água do mar
realizava a cura)..
Prosseguindo com
suas buscas, o homem conseguiu alguns avanços notáveis. Sabe-se, por
exemplo, que uma espécie de cerveja já era produzida pelos egípcios há
cerca de 5000 anos; este mesmo povo também já dominava a técnica
de armazenagem de grãos. Alguns registros mostram que os fenícios, os
egípcios e os gregos secavam, defumavam e salgavam seus peixes para
transportá-los na região, que é bastante quente. Os romanos também
consumiam carnes salgadas e caças provenientes de distantes regiões,
conservadas no mel. Além disso, eram exímios panificadores,
considerando, inclusive, a panificação como uma forma de arte, que
liberava seus "artistas" até do pagamento de impostos.
Também na
civilização oriental, 3000 anos antes de Cristo os chineses já
utilizavam o sal para conservar os peixes acumulados em épocas de
fartura e, 1000 anos depois disso, já haviam desenvolvido
tecnologia para a conservação de peixes utilizando gelo.
Os índios
brasileiros, muito antes do descobrimento, costumavam assar as carnes,
secar os peixes e depois armazená-los em caldo grosso de pimenta. A
conservação por imersão na gordura também era utilizada pelos nossos
índios que deixavam os animais imersos em sua própria gordura. Os
Bandeirantes salgavam as caças para poder transportá-las durante suas
expedições.
Os índios americanos colocavam tiras de bisão e de veado no alto de
uma tenda ou sobre uma fogueira, onde a conservação era devida à
dessecação ou à defumação, respectivamente. O bacalhau seco e salgado
era um alimento comum entre os colonos americanos. Os alimentos
perecíveis eram guardados em cavernas e fontes, onde a baixa
temperatura prolongava a conservação desejada.
Preservar alimentos: um novo desafio para a tecnologia
O início do século
19, uma sociedade cada vez mais urbana, comercial e industrial
distanciava-se dos centros produtivos, tendo dificuldade crescente para
alimentar-se. Exceto o vinho, o pão, o azeite e alguns poucos alimentos,
todo o resto se deteriorava rapidamente e, como conseqüência,
comprometia o
crescimento das cidades.
Vivia-se, também,
um grande progresso científico, que não tardou a encampar, entre seus
desafios, o desenvolvimento de técnicas de conservação que aumentasse a
durabilidade de gêneros alimentícios, como carne e peixes, para que
pudessem ser vendidos a preços baixos. A questão básica era descobrir
como os alimentos apodreciam.
Uma discussão antiga
Vinha do século anterior o famoso debate entre Lazzaro Spallanzani e Jonh Needham sobre a geração espontânea, em que o
primeiro demonstrou a impossibilidade de fermentação em infusões
aquecidas a 100ºC (temperatura de ebulição da água). Sabia-se também que
todo organismo (vegetal ou animal), quando separado dos mecanismos que o
mantêm vivo, passa por um processo inicial de fermentação, evoluindo
para a putrefação. Parecia instigante a idéia de utilizar o calor,
conforme demonstrou Spallanzani, para estacar o início do processo de
deterioração dos alimentos. Antes disso, no começo do século 18, o
inventor francês Denis Papin, inventor da máquina a vapor, já
empreendera experiências sobre conservação de alimentos, cozinhando-os e
mantendo-os em vidros hermeticamente fechados.
Cientista por acaso
Coube, no entanto, ao confeiteiro francês Nicolas Appert aprofundar a idéia de Papin, utilizando-a com latas. Não se sabe
qual o conhecimento teórico que Appert tinha sobre conservação de
alimentos, mas foi para resolver as questões práticas do dia-a-dia de
sua confeitaria que ele teve a genial intuição de que a ação destruidora
do calor sobre os microorganismos do alimento perdurava por mais tempo
em um recipiente hermeticamente fechado. Nasciam as conservas, marco
fundamental de toda a história da conservação de alimentos. Seu método
conseguiu crescente sucesso comercial, tendo sido utilizado por Napoleão
Bonaparte no abastecimento de suas tropas, tornando-as mais autônomas, e
na marinha mercante, para as longas viagens transatlânticas.
Pasteurização, uma idéia revolucionária
Em 1851, Pasteur finalmente
demonstra cientificamente os fundamentos teóricos que sustentam as
experiências empíricas de Appert. O processo de tratamento térmico,
baseado na elevação da temperatura do alimento até 57oC, por alguns
minutos, mostrou-se eficaz na prevenção da fermentação anormal do vinho
e da cerveja. O método, em homenagem ao seu inventor, passou a ser
conhecido com pasteurização. É curioso constatar que sua aplicação
inicial não tenha sido com o leite, alimento extremamente perecível, e
sim com o vinho, mais resistente à deterioração. A razão disso foi,
provavelmente, a inexistência da geladeira, eletrodoméstico fundamental
para conservar o efeito da pasteurização após a finalização do processo.
Leite condensado.
Ao aplicar o método de Appert ao leite, o inventor
francês Malbec, em 1828, cria o leite condensado. É um achado e
rapidamente essa forma de tratamento do leite expande-se na Europa. Em
1856, chega aos Estados Unidos pelas mãos de Gail Borden. Beneficiado
pela guerra civil americana, deflagrada em 1861, seu produto alcança
notável sucesso comercial. Em 1880, o suíço J.B. Meyenberg aprimorou o
método de fabricação do leite condensado, utilizando um sistema de
esterilização em autoclave, que consistia em aquecê-lo até a temperatura
de 120oC, em recipiente fechado, submetido a pressão. Aproveitando os
avanços tecnológicos obtidos e a abertura de um mercado enorme para os
padrões da época, Charles e George Page fundam a Anglo Swiss Condensed
Milk, em 1866, na Suíça, que rapidamente progrediu.
A farinha láctea
Um
ano depois, em 1867, o químico alemão Henry Nestlé lança uma farinha
láctea inventada por ele e destinada à alimentação de crianças. Após
quase 40 anos de acirrada concorrência, as duas companhias se fundiram e
deram origem à Nestlé, que já iniciava suas atividades com 17 fábricas e
grande presença no varejo.
A caminho da refrigeração.
Desde os primórdios, os homens conheciam a
capacidade conservativa do frio. Algumas casas na Europa, já no início
do século 18, dispunham de compartimentos subterrâneos, onde o gelo era
armazenado no inverno, com o objetivo de conservar alimentos, como
carnes e peixes. Durante anos, todo o esforço concentrou-se em sistemas
de isolamento térmico cada vez mais sofisticados, que resultavam em
câmaras frias com ineficiência proporcional ao seu tamanho. No início do
século 19, a partir de experiências com gases, levadas a cabo por
diversos físicos, entre eles Gay-Lussac, descobriu-se que a expansão de
gases subtrai calor do ambiente. Portanto, a criação de um método de
compressão de gás, seguido pela sua liberação, seria capaz de promover a
refrigeração, dando independência às câmaras frias, que passariam a
criar ambiente frios e não simplesmente conservá-los.
O surgimento da geladeira
De fato, em 1834, o americano Jacob Perkins
fabricou, pela primeira vez, gelo artificial. Em 1851, John Gorrie,
também americano, patenteia o primeiro compressor de ar movido a vapor,
que se destinava a refrigerar câmaras frias de hospitais. Em 1879,
aparece o primeiro refrigerador de natureza doméstica, inventado pelo
alemão Karl Van Linde, que empregava um circuito de amoníaco e ainda era
acionado por uma bomba a vapor.
Ainda hoje, o
cuidado com o preparo dos alimentos e sua perfeita conservação, além
de evitar o desperdício de comida, diminui o risco de doenças
provocadas pela ingestão de alimentos contaminados.
Fonte:
Pratique Leite
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