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PEQUENA HISTÓRIA DAS
CONSERVAS DE FRUTAS
Compotas -
Geléias - Frutas Cristalizadas
A origem das conservas de frutas - compotas, geléias,
doces em barras, frutas cristalizadas - é muito antiga e é creditada aos
árabes, mais exatamente aos mesopotâmios que,
entretanto, a utilizavam com fins medicinais. Na
verdade, geléias, compotas, marzipans, frutas
cristalizadas e o açúcar são bases de medicamentos
importantes da farmacopéia árabe e da
medicina medieval européia.
Foram os árabes os introdutores do açúcar tanto na
farmacopéia quanto na cozinha.
A
arte de conservar e confeitar frutas foi introduzida na Europa pelos
cruzados. O método tradicional de preparação dessas
iguarias não se alterou por séculos, continuando
a ser simples e rápido. O odor dos frutos de verão
misturado com açúcar continua seduzindo e
reconfortando os homens até hoje.
As
primeiras receitas
O primeiro texto conhecido aparentando uma
compota - marmelos confitados no mel, remonta aos
primórdios da nossa era, figurando num dos 37 volumes
da História Natural de Plínio, o antigo, autor romano
do século 1. Mais tarde, no século 4, o agrônomo Palladius, cita,
também,
duas outras receitas de marmelos confits em mel.
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Leonardo da Vinci |
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Num manuscrito batizado de "Notas de Cucina de
Leonardo da Vinci", do célebre e polivalente artista
renascentista (1452-1519), entre 80 receitas (a
maioria salgada já que os alimentos feitos com açúcar
eram pouco presentes na dieta cotidiana
européia.daquela época) destaca-se uma receita de
"marmelada de couve" que era feita com mel e a
partir de técnicas presentes em muitos outros livros
de cozinha editados posteriormente. A receita era da
cozinheira de Leonardo que, apesar de garantir que
jamais provaria a iguaria, afirmava ser ela "ideal
para acompanhar pratos de carne".
Na Idade Média, a denominação "compota" designava
todas as confeitarias realizadas a partir de alimentos
cozidos em açúcar ou mel: as frutas em calda, os
bombons, frutos confitados, geléias, etc...
Até o século
15, as
receitas evoluem e outras frutas são citadas:além do
marmelo: pêras, amêndoas e até mesmo nabos, cenouras,
salsão e erva doce.
O Tratado de Nostradamus
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Nostradamus |
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Mas primeira obra publicada que trata
da arte e a maneira de fazer compotas e geléias data do século
16 e deve-se ao médico, astrólogo e praticante da
alquimia Michel de Nostre-Dame, mais conhecido por Nostradamus
(1503-1566). Interessado no estudo das plantas e seus
efeitos na cura das doenças, ele passou uma temporada
de dois anos na Itália (1547-1549), onde se dedicou a
aprofundar seus conhecimentos em alquimia vegetal,
descobrindo, em Milão, um boticário especializado
nessa matéria, que o inicia na arte das compotas e
geléias curativas.
De volta à França, estudou e fez experiências com os
doces de frutas medicamentosos e, em 1552, publicou o
resultado de suas pesquisas com o título de "Traité
des Fardements et des Confitures". Sua
receita de geléia de marmelo valeu-lhe elogios do
núncio papal de Avignon, pela doçura celestial.
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A
obra de Nostradamus, atingiu, no espaço de
trinta e cinco anos, doze edições, um recorde absoluto
para a época. Apresenta trinta receitas de compotas,
geléias e xaropes de frutos diversos. Muitas vezes ele
indica as qualidades alimentícias e medicinais dos
doces, assim como a forma de ingeri-los. Mas quase
sempre os doces não têm apenas utilidade farmacêutica.
São alimentos agradáveis ao paladar, suaves e
aconselhados para serem consumidos em qualquer
oportunidade.
A
importância da obra de Nostradamus repousa, assim, na
forma simples com que divulga seu saber e sistematiza
as indicações terapêuticas das conservas de frutos.
Por meio da utilização adequada de produtos
disponíveis nas dispensas das casas mais remediadas,
era possível confeccionar a maior parte das receitas
prescritas, já que os doces presentes nesse
receituário podiam ser feitos com mel ou mosto, além
de açúcar. Em uma época em que o açúcar ainda era
bastante caro e raro, o autor tornava acessível a um
público amplo o que até então era consumido apenas
pela elite. Este talvez seja o segredo de tantas
edições do livro.
O
avanço ao longo dos séculos
Nos séculos 17 e 18,
os conhecimentos medicinais das compotas de frutas,
assim como o uso do açúcar na alimentação, já estavam
bem disseminados entre a população, e a arte da
doçaria. a confeitaria e a conservaria já haviam
conquistado
definitivamente seu lugar de celebração, distinção e
sociabilidade na boa mesa européia, como atestam os
livros antigos de receitas com sua variedade de
receitas de bolos, tortas e cremes. As
variedades de geléias são cada vez mais numerosas. As
descobertas de regiões remotas e a instalação de
comércios em várias partes do mundo, permitem a
introdução de frutos exóticos na Europa.
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Em
1788, de um autor anônimo, é publicado, em
Portugal, o livro " Arte Nova e Curiosa para
Conserveiros, Confeiteiros e Copeiros e mais Pessoas
que se Ocupam em Fazer Doces e Conservas com Frutas".
Altamente especializada, compilando o que havia de
mais tradicional e característico na confeitaria e
conservaria portuguesas, a obra apresenta 162 receitas
de doces, nas quais predominam os chamados "preparados
pequenos", entre eles, biscoitos, broas, farteis (um
doce delicado, envolvido em capa de massa de trigo),
e pastéis e uma grande variedade de doces de frutos.
Em menor quantidade, registram-se as receitas de
"doces de colher" (doces pastosos), à base de ovos e
típicos da doçaria conventual portuguesa, bem como os
"doces de bacia" (bolos e tortas).
No caso das conservas de frutas, algumas das
informações sobre saúde disponíveis na obra de
Nostradamus são reafirmadas, mas as receitas não
possuem mais a preocupação com a natureza dos
alimentos e sua disgestibilidade. Os ensinamentos
técnicos sobre a arte de conservar, por sua vez,
embora não sejam tão detalhados quanto os de
Nostradamus, são o grande destaque da obra, pois
permitem a avaliação, ao longo do tempo, das práticas
alimentares, do modo de cozinhar e dos equipamentos de
cozinha.
Técnicas e procedimentos da arte de conservar os
frutos
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Receita Perinhas em Conserva
Tratado século 18
Autor Anônimo
A receita de Perinhas em Conserva, existente no receituário do autor
português anônimo do século 18, ilustra bem a técnica de conservar:
“Aparem as pêras e as vão lançando na água, porque se não façam
negras, e postas a cozer em um
tacho de água e como ferverem passem-nas com um alfinete grande para
ver se estão cozidas e como se entender que o estão as vão tirando e
lançando em um alguidar de água fria e as vão lavando e passando a
outro alguidar de água e como estiverem bem lavadas em três ou quatro
águas, as metam nos atanadores e lhe lancem por cima uma pouca de água
quente e as deixem assim estar enquanto se clarifica o açúcar.
E como o estiver escorram a água às pêras e lancem-lhe o açúcar, que
fiquem bem cobertas, ao outro dia escorram o açúcar no tacho e
desse-lhe uma fervura e isto vão fazendo quatro ou cinco dias,
indo-lhe acrescentando o açúcar de modo que
andem sempre cobertas e assim continuando isto nove dias, no fim deles
fervem as pêras na conserva e no mais açúcar que lhe for necessário e
lancem-lhe o âmbar que quiserem e como ferver as tiram e põem em
alguidares e deles se vão metendo nas panelas e se lhe lança açúcar
groso de modo que fiquem cobertas.”
Cf. ARTE nova e curiosa..., op. cit., p. 33-34.
Cabe lembrar que o processo é semelhante ao das receitas apresentadas
no tratado
de Nostradamus.
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Entre o final do século 15, época do suposto registro
da marmelada de couve nas anotações de cozinha de
Leonardo da Vinci, e o século 18, muitas coisas
mudaram nas cozinhas das grandes casas européias, mas
no que tange à arte da conservaria, o princípio básico
de preservar os frutos em caldas doces (feitas com mel
ou açúcar) pouco mudou. As alterações ficam por conta
de produtos novos, dos utensílios de cozinha que foram
aprimorados e da forma de servir os doces e compotas,
já que o ritual das refeições, o serviço de mesa e as
normas de etiqueta passaram por transformações
intensas entre o início e o final da Idade Moderna.
A grande revolução no campo da doçaria e, por
extensão, na arte de conservar os frutos foi,
certamente, a adoção do açúcar de cana como substituto
do mel e, com ele, a difusão da indústria conserveira
e doceira. Embora a utilização do açúcar refinado não
fosse ainda totalmente dominante no século XVIII, haja
vista a indicação da necessidade de clarificar o
açúcar em muitas das receitas de conservas
apresentadas na Arte nova e curiosa para conserveiros,
o açúcar de cana tornou-se o produto por excelência da
arte de fazer doces e conservas de frutos. Quando o
produto refinado era indispensável ao sucesso da
receita, havia a necessidade de especificações do
tipo: "açúcar da Ilha da Madeira" ou "açúcar em pó".
A marmelada de couve do final do século XV era,
portanto, feita com mel (metade do peso da couve), já
as conservas de frutos prescritas por Nostradamus
podiam ser feitas com mel, mosto (líquido obtido da
uva antes de terminada sua fermentação, o qual,
adicionado a uvas bem maduras, proporcionava uma calda
que, fervida e coada, servia como adoçante para a
fabricação de conserva de fruta) ou açúcar de cana, o
que indica bem a transição importante, mas paulatina,
de substituição de um produto por outro. Embora no
tratado do século 18 poucos doces fossem ainda
confeccionados com mel, o açúcar era "liquificado" de
modo a atingir consistências semelhantes à do
tradicional adulcorante. Só depois de adquirido o
"ponto" certo (de cabelo, de espadana, de espelho e
muitos outros) a calda de açúcar deveria ser
adicionada à mistura de ovos, à farinha ou às frutas.
Estas, na maior parte das vezes, já deveriam estar
cozidas ou pré-cozidas no momento de receber a calda
doce, como se observa na receita de perada (ver box ao
lado), que levava "quatro arráteis de açúcar
clarificado em ponto grosso", o qual, depois de
esfriado um pouco, "lhe deitarão sete arráteis de
pêras mal pesadas, cozidas primeiro..."
O processo de conservar os frutos consistia, assim, na
adição de grandes quantidades de calda doce ao produto
a ser confeccionado, devendo esta ser diariamente
escoada e renovada. Tratava-se de um procedimento
longo e trabalhoso, que começava com os cuidados com
os frutos (descascar, lavar, retirar caroços e
sementes, cortar, cozinhar), o qual só seria concluído
após os frutos e as caldas passarem por vários
cozimentos, sendo retirados e recolocados em tachos
com extremo cuidado e controle dos pontos de cozedura.
Apenas na última etapa adicionavam-se as especiarias
como o cravo-da-índia, a canela e
o almíscar.
E
o açúcar faz a diferença
Comparando-se os processos de confecção de conservas
de frutos divulgados no tratado de Nostradamus com
aqueles disponíveis no livro de receitas do século 18,
observa-se que a grande diferença entre eles repousa
no tempo de preparação das conservas. No tratado do
século 16, uma conserva de casca de laranjas, por
exemplo, poderia levar até um mês para ser feita. A
mesma conserva no livro do século 18 tomava dez dias
de trabalhos e atenções. Mergulhados em caldas de mel,
de mosto ou de açúcar, tudo indica que os frutos iam
ficando doces e adquirindo consistência com o passar
do tempo e das várias cozeduras e repousos. É
possível, portanto, que a aparente "rapidez" da
confecção da conserva do doceiro português estivesse
relacionada à qualidade do adoçante utilizado: um
açúcar mais puro e concentrado do que o consumido no
tempo de Nostradamus e mais doce do que o mel ou o
mosto.
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Apesar da diferença no adoçante utilizado, as receitas
existentes nos dois tratados apresentam semelhanças,
quer nos frutos utilizados, que permanecem
praticamente os mesmos (laranjas, limões, ginjas,
marmelos, abóboras e pêras), quer nas etapas e
procedimentos de confecção (cozer o fruto, adicionar a
calda, deixar repousar, escorrer e tornar a adicionar
uma nova calda). É bem provável que o autor anônimo do
tratado setecentista tenha se inspirado na obra de
Nostradamus ou em outras compilações de receitas de
conservas que remontavam, de alguma forma, às receitas
do famoso autor das Profecias, já que, em geral, os
livros de cozinha se inspiravam em um modelo anterior,
muitas vezes datado de alguns séculos. O que se
observa, portanto, em termos de técnica, é a
existência de uma "receita de base", que, modificada e
adaptada a outros ingredientes, poderia resultar em
novos sabores, novos doces e novos produtos a serem
conservados.
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No Tratado de Nostradamus (século 16) por exemplo, não
há registro de conservas de pêssegos, damascos e
ameixas, as quais são abundantes no livro de cozinha
do século 18. Neste, também, se encontram compotas de
frutos, cujo modo de preparar difere do das conservas
doces tradicionais, já que o fruto deveria ser cozido
com o açúcar e servido quente, diretamente da panela,
como registrou seu autor: "O doce de compotas é o que
mais se usa nos banquetes por ir quente à mesa. Este
doce nomeado compotas se costuma fazer de frutos de
maçãs, como pêras". Seu preparo é diferente das
conservas, pois os frutos são cozidos na calda do
açúcar e "quando estão brandas se deitam no prato com
a mesma calda e vai à mesa para beber água nevada
sobre a dita compota. Desta compota se fazem todas as
frutas..."
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O
tratado do século 18 utiliza ainda, em certas
receitas, o recurso de secar os doces ao sol em
tabuleiros ou caixas (doces secos), após serem cozidos
com açúcar em calda, como no caso dos pêssegos
cobertos, das ameixas cobertas ou da marmelada para
caixa. Trata-se de uma outra forma de preservação dos
frutos, embora apresente semelhanças com a técnica das
conservas. Nostradamus, por sua vez, fornece uma
receita de açúcar cristalizado, mas não de frutos
cristalizados. Suas receitas são basicamente de
conservas, xaropes e geléias, insistindo sempre na
higiene dos potes que deveriam conter as conservas e
no perfeito acondicionamento em recipientes bem
fechados. Esses detalhes poderiam mudar sensivelmente
a aparência e o gosto das conservas, bem como a forma
de servir e consumir os doces de frutas.
A
evolução dos utensílios
Entre os séculos XV e XVIII, também ocorreram mudanças
nos utensílios de cozinha. A cozinha do confeiteiro do
século 18 parece ser, sem dúvida, a mais equipada das
citadas pelos três tratadistas citados acima. Além de
forno e fogão, havia alfinetes para verificar o
cozimento das frutas (estes já mencionados por
Nostrdamus, possivelmente devido à falta de garfos),
panelas, balanças, tachos, palanganas (tabuleiros),
peneiras, raladores, escumadeiras, facas, colheres,
garfos, vasilhas de barro e metal, todos utilizados na
fabricação das conservas. A do tempo de Leonardo,
mesmo em se tratando de uma cozinha da nobreza, seria
a mais discreta. Daí, talvez, o interesse do artista
"registrado nas Anotações" em criar ele mesmo
instrumentos de vários tipos para "limpar, picar,
moer, descascar e cortar" os alimentos. O registro
atribui a Leonardo, inclusive, a invenção do garfo de
três dentes.
Na época de Nostradamus, muito próxima à de Leonardo,
panelas de ferro, pilão de madeira, caixas de madeira
ou vidro e potes de barro eram os utensílios mais
citados e praticamente não apareciam equipamentos
específicos para a conservaria, como formas, tachos,
joeiras, peneiras etc. Lembrando que até os pratos,
copos e facas individuais eram ainda raros nos
banquetes da nobreza do século XVI e que a comida era
depositada sobre uma fatia de pão individualmente
distribuída (no lugar de pratos), não é difícil
imaginar o quanto os equipamentos de cozinha se
multiplicaram em quase três séculos.
Eles acompanharam as transformações técnicas ocorridas
na culinária, mas surgiram, sobretudo, para atender à
arte de servir e de estar à mesa, que ganhou normas
rígidas de conduta, em concordância com os códigos de
civilidade e de bom tom que despontaram no período.
Na
Península Ibérica
Em
Portugal e no restante da Península Ibérica, há
registros sobre
o ofício de confeiteiro e conserveiro datados do final da Idade
Média e início da época moderna, já que a indústria de
conservas ou de doces
de frutas, de influência árabe, desenvolveu-se
associada à produção de açúcar.
Nessas regiões, surgiu uma grande variedade de
confeitos e doces de frutas
(em calda de açúcar, cristalizadas) que eram,
inclusive, exportados para outras
partes da Europa.
No início, esses doces e confeitos destacaram-se pelo
seu valor
medicinal, mas rapidamente foram adquirindo outros
usos e significados
e estimularam uma indústria doceira que se expandiu, sendo
aperfeiçoada nos séculos seguintes.
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Em
Portugal, essa arte era desenvolvida domesticamente
pelas mulheres, servindo de sustento a muitas
famílias, mas havia também homens envolvidos no
ofício, como informa a documentação portuguesa ao
referir-se aos "conserveiros", "confeiteiros" e "alfoeleyros"
(fabricantes de alféloas, um doce de calda de açúcar
ou de melado em ponto). Mas foi nos conventos e
recolhimentos femininos que a arte da doçaria e
conservaria se expandiu, notadamente em Portugal e em
suas colônias, a partir do século 17. Essa
tradição doceira marcou a culinária portuguesa até os
dias de hoje, conferindo identidade à doçaria regional
lusitana, como as queijadas de Sintra, os ovos moles
de Aveiro e tantos outros doces conventuais, cujas
receitas foram transmitidas através das gerações.
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Com a expansão da produção de açúcar, o doce foi sendo
introduzido
também nas mesas mais populares, sempre com esse
caráter supérfluo,
comemorativo e de encerramento de uma boa refeição.
Invadiu as merendas
e as ceias frugais, adquirindo ainda uma conotação de
mimo e de presente a
ser ofertado como sinal de estima. Vasco da Gama, por
exemplo, ofereceu
ao xeque de Moçambique conservas da ilha da Madeira. Com o tempo, o
costume tomou dimensão maior, alastrando-se pela
sociedade. Assim, símbolo
de status, de amor, de festa e de sociabilidade, o
doce conquistou muitos
significados sem perder seu valor medicinal e
nutritivo original.
Os confeitos de frutas e as conservas doces eram afamados na Ilha
da Madeira já no século
XV, sendo muitas vezes enriquecidos com especiarias
européias e orientais
(amêndoas, anis, gengibre, coentro seco). As frutas
cristalizadas, por sua vez,
são referidas pelos viajantes que visitaram a ilha no
século 16.
Pompeo Arditi, em 1567, menciona "que nela (Ilha da
Madeira) ancoram
todos os barcos
para comprar açúcar, vinho e conserva de açúcar, que
nesta cidade se fazem
de grande qualidade e em muita abundância". Nessa
localidade, era também
famosa a "casquinha", conserva feita com a casca de
frutos cítricos, a qual
fazia parte da provisão das embarcações nas grandes
viagens marítimas, por
ajudar a combater o escorbuto. Sabe-se, por outro
lado, que em Valência e
na Sicilia havia uma tradição conserveira importante
desde o início da Idade
Moderna.
No
Brasil
O
gosto e os conhecimentos técnicos para fabricar
conservas com frutos tropicais foram registrados
também pelos primeiros cronistas da América
portuguesa, sinal de que os conquistadores
preservaram, no Novo Mundo, certos saberes e hábitos
alimentares europeus.
Aqui ocorreu a substituição dos produtos europeus por
similares da colônia. Onde a portuguesa usava maçãs,
pêras e pêssegos para fazer suas conservas, passou a
usar o mamão verde e o coco. As cerejas e ameixas
podiam ter como similar a jabuticaba, enquanto as
nozes e amêndoas, o amendoim. A estrutura culinária
portuguesa foi mantida mas os ingredientes foram
trocados. Nas grandes fazendas ou nas minas coloniais,
a culinária ganhava cara própria, variando de região
para região de acordo com os produtos disponíveis e as
características dos povos presentes como escravos,
portugueses e índios.
A
popularização das Conservas de Frutas
Apesar de toda a evolução nas técnicas de preparo, nos
edulcorantes (adoçantes), utensílios e mesmo na
variedade de frutas, até o século 18, as conservas
doces são produtos de luxo, encontradas, sobretudo, na
mesa do nobres. Na verdade, até o século 19, a maioria
das civilizações não incluía as frutas na alimentação.
São os avanços tecnológicos advindos das descobertas
científicas do século 19 que possibilitam a
popularização das conservas de frutas. O "método
Appert" de conservação por esterilização pelo
calor, divulgado em 1810, a descoberta do processo de
solidificação do açúcar de beterraba, a pasteurização
e o enlatamento, permitiram a fabricação das mais
variadas conservas, em particular as de legumes, que
mantinham mais ou menos o sabor do produto fresco.
Ao
longo dos séculos, as conservas de frutas passaram de
uma presença muito tímida nas refeições a um lugar de
destaque na alimentação européia, ganhando, inclusive,
status de arte independente, merecedora de obras
específicas que as divulgassem.
Hoje, a industrialização permite fabricar grandes
quantidades de conservas de frutas, mas, por outro lado, o gosto
tende à uniformização. Há, entretanto, atualmente, uma
procura cada vez maior por aromas e sabores mais
originais, mais refinados, só encontrados nas
produções artesanais ou fazendo você mesmo as suas
compotas e geléias, consideradas um alimento de
prazer..

Fontes:
*
Pratique Leite
* Alimentação, Saúde
e Sociabilidade
A Arte de Conservar
e Confeitar os Frutos - (séculos XV-XVIII)
Leila Mezan Algranti
* Thesaurus
Para saber mais
sobre:
Compotas,
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História da
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