Estamos envelhecendo... O Censo 2000 do
IBGE aponta a existência de cerca 14,5 milhões de brasileiros com 60 anos ou
mais nos dias de hoje, o equivalente a 8,6% da população do Brasil. Em 2050,
a previsão é de que vamos chegar a 260 milhões de brasileiros, com 20% na
faixa considerada terceira idade.
Já vivemos, em média, 68 anos e precisamos nos adaptar a essa nova fase da
vida, que pode ser melhor, quando gozamos de boa saúde. À medida que
envelhecemos, nos tornamos mais vulneráveis do ponto de vista nutricional.
Precisamos encarar isso com bom humor e otimismo, pois ao final das contas,
já contamos com profissionais especializados que podem nos auxiliar nesta
etapa da vida.
A primeira implicação nutricional na terceira idade está relacionada às
necessidades calóricas. Elas realmente são menores, em média 100 calorias a
menos por década de vida. Essa diminuição gradativa nas necessidades
calóricas é um processo lento, que casa-se muito bem com a gradual redução
na ingesta alimentar do idoso. Portanto, para evitarmos a obesidade ou a
desnutrição na terceira idade, o balanceamento da dieta requer um pouco mais
de cuidado, a cada ano que passa.
Alimentação diferenciada
Com relação aos macronutrientes, não há grandes diferenças em relação às
dietas balanceadas para os adultos jovens. Os idosos também precisam
diariamente de cerca de 55-60% de carboidratos (arroz, pães, batata,
macarrão); até 30% de gorduras totais, com menos de 10% de gorduras
saturadas e o restante em proteínas.
Uma das mais significativas alterações na composição corporal do indivíduo,
durante o processo do envelhecimento, é a perda progressiva da massa magra.
A massa magra é todo o peso corporal subtraído o peso da gordura, ou seja,
equivale aos nossos ossos, água corporal, vísceras e músculos. A composição
corporal pode ser avaliada por meio de um exame prático e barato, a
bioimpedância.
Os idosos sofrem uma perda progressiva de massa muscular e, portanto, de
massa magra. Esta perda de massa muscular é causada por vários fatores,
dentre eles podemos destacar a inatividade física e a progressiva redução da
ingesta alimentar. Nesses casos, somente idosos em programas de recuperação
muscular, que praticam atividades físicas conseguem um aumento eficiente da
ingesta alimentar, com perda menor da massa magra.
As necessidades de hidratação dos idosos são semelhantes às dos adultos
jovens, ou seja, 30ml/kg/dia. A hidratação é muito importante para pacientes
cronicamente enfermos, com dificuldade de acesso à água, principalmente
àqueles com perdas extras de líquido pelo uso de diuréticos e laxantes.
Muitos estudos mostram a alta incidência de hospitalizações de idosos em
conseqüência de desidratação.
O idoso, geralmente, tem maior necessidade de micronutrientes e de algumas
vitaminas, como é o caso do cálcio e da vitamina D, que afetam a densidade
mineral óssea e o risco de sofrer com osteoporose e fraturas. Outra vitamina
que deve ser dosada em idosos é a B12, pois não é raro encontrarmos
pacientes com baixas concentrações desta vitamina no organismo, causadas
pela ingestão insuficiente dela ou pela má absorção da mesma pelo organismo.
A dosagem de vitamina B12 deve fazer parte do tratamento de idosos com
alterações cognitivas (dificuldade de memorização, organização de idéias e
aquisição de conhecimentos) e do diagnóstico diferencial das demências, pois
a carência desta vitamina leva a um quadro de alterações comportamentais
sugestivas da doença de Alzheimer.
Suplementos alimentares
Muitas teorias tentam explicar o envelhecimento. Uma das mais aceitas é a do
dano oxidativo ao DNA. Segundo esta teoria, os radicais livres são os
grandes causadores das doenças degenerativas, cânceres e envelhecimento. A
partir dela, iniciou-se uma corrida aos possíveis bloqueadores da formação
dos radicais livres, os antioxidantes. Os mais importantes, do ponto de
vista clínico e nutricional, são as vitaminas E, C, os carotenóides (beta
caroteno e licopeno) e os polifenóis.
Durante muito tempo, estes antioxidantes foram usados como suplementos
alimentares na esperança de prevenir doenças cardiovasculares, infarto agudo
do miocárdio, retardo do envelhecimento e na prevenção do aparecimento do
câncer. Este tipo de uso dos antioxidantes não é mais recomendável nos dias
de hoje. Estudos recentes apontam que os suplementos, quando ingeridos em
megadoses, além de não serem protetores do organismo, podem causar danos ao
próprio DNA - caso da vitamina C - e podem aumentar a taxa de mortalidade -
caso da vitamina E.
Estudos mais recentes também não apontam evidências dos benefícios do uso
diário de altas doses de suplementos de vitamina C para prevenir qualquer
doença. Doses diárias de vitamina C de 500mg ou mais podem, inclusive,
causar danos oxidativos ao nosso DNA, causando um efeito contrário do que o
paciente espera. Além disso, não há motivos para suplementar vitamina C como
antioxidante, uma vez que 100g de maçã com casca tem o poder antioxidante de
1,5g de vitamina C.
O beta caroteno também foi exaustivamente usado em suplementações de
antioxidantes. No entanto, há 10 anos, o estudo ATBC Study publicado no The
New England Journal of Medicine, realizado com 29.000 homens fumantes lançou
por terra esta atribuição dada à vitamina, ao registrar um aumento da
mortalidade entre os usuários de beta caroteno, além de maior incidência de
câncer de pulmão. Esses resultados levaram inclusive à interrupção precoce
do estudo.
Entre os carotenóides, muita ênfase é dada ao licopeno. É verdade que a
maioria dos estudos tem revelado uma menor incidência de câncer de próstata
em homens que consomem esse antioxidante. Mas os suplementos industralizados
e manipulados de licopeno têm menor efeito do que o tomate in natura, e
este, menor efetividade que o molho de tomate. Logo, licopeno funciona,
tomate funciona mais e molho de tomate funciona ainda mais.
A melhor dieta
A complexidade do paciente idoso, geralmente portador de doenças crônicas e
usuário de vários medicamentos, faz dele um paciente que necessita de uma
abordagem nutricional individualizada. Aqui, se faz necessária a formação de
equipe multidisciplinar de nutrição, composta basicamente por médicos
geriatras e nutrólogos, nutricionistas e psicólogos.
Faço minhas as palavras da American Dietetic Association, que prega que "a
melhor estratégia nutricional para a promoção da saúde e redução do risco de
doenças crônicas é o consumo de uma grande variedade de alimentos. O uso
adicional de vitaminas e sais minerais, vindos de alimentos fortificados ou
suplementos deve apenas auxiliar a atingir as necessidades nutricionais,
baseadas nas conhecidas quantidades recomendadas de ingestão".