AZEITE DE OLIVA
Um outro
"cachorro engarrafado"
o verdadeiro
"melhor amigo do homem"
por
Jezebel Salem
Quem não se lembra da divertida definição
sobre um etílico como o melhor amigo do homem, do poeta Vinícius de
Moraes, em declaração de amor e fidelidade a bebida. “Whisky é o
cachorro engarrafado”, dizia. Porém em matéria de saúde, outro
engarrafado – mas nada alcoólico – o azeite de oliva, é que mereceria
com toda adequação a homenagem.
O azeite sempre foi um produto de grande importância. E isso desde os
fenícios, como também para os etruscos, especialmente do ponto de vista
econômico, pois entre aquelas civilizações já era uma mercadoria
destinada à
exportação. E nesse âmbito, parece que pouca coisa mudou até nossos
dias. Toda a diversificada região ao redor do mar Mediterrâneo, em razão
do micro-clima, sempre foi abençoada e especializada no assunto. O resto
do mundo teve que se contentar com a importação.
Plínio, o Velho, nos tempos de Pompéia, relata os diferentes tipos de
azeitonas conhecidas na sua época. Salienta, em especial, uma variedade
muito rara e "mais doce que as passas de uva”, encontrada somente na
Espanha. Logo, não deve ser a toa que este país, em pleno século 21 d.C.,
detém a maior produção mundial em óleos de oliva e tornou-se o maior
exportador do produto. Já Catão recomendava uma dieta a base de
azeitonas, especialmente para a massa de mão de obra escrava, pelo seu
alto índice calórico e de proteínas.
Porém, um bom azeite parece jamais ter sido um pitéu para plebeus. “As
468 Receitas de Ricos” compiladas por Apicius, na Roma Antiga, comprovam
a tese, onde citavam 10 ingredientes básicos para a preparação de um
“prato de rico”, e por ordem de importância: pimenta, garum, azeite,
mel, levístico, vinagre, vinho, cominhos, arruda e coentro. Apicius
ainda insistia: “Para cozinhar um prato, são necessários em média oito
ou nove destes ingredientes, os quais, devido ao seu preço, não figuram
na culinária dos pobres”...
Felizmente as coisas mudaram neste aspecto e o atual modelo econômico
contribuiu com certa democratização, também, à mesa... Afinal desembolsar
em média de R$ 20 a R$ 30 por um produto importado, e ainda em se
falando de meio litro de bom azeite virgem de olivas, não vai deixar
ninguém na ruína – considerando que tal volume irá render muitos pratos
e arremates culinários que justificarão o investimento. Mas,
especialmente, considerando os aspectos “medicinais” e preventivos que o
famoso óleo de oliva promove (e que todo o moderno conceito de
alimentação equilibrada apregoa). Ele garante longevidade, baixa do
colesterol, combate aos radicais livres, pele luminosa, fácil digestão,
inibe a enxaqueca, ajuda na manutenção estrutural das membranas dos
neurônios, previne certos cânceres, arteriosclerose, enfartos, derrames,
artrites, etc. etc. – atributos que as outras gorduras comestíveis não
garantem, convenhamos.
Em razão de tamanhas vantagens, e como “alimento funcional” – que
previne doenças – o consumo mundial aumentou expressivamente. O Brasil
acompanha atento a escalada. Segundo estimativa da Oliva (Associação
Brasileira de Produtores, Importadores e Comerciantes de Azeite de
Oliveira), no primeiro bimestre de 2007 foi registrado um crescimento de
32,7% nas importações de azeite em relação ao ano anterior, o que
correspondente a mais de 5.200 toneladas vendidas contra 3.900, do ano
anterior. Estima-se superar, até dezembro, a marca de 31.500 toneladas –
porém, lembrando que o Brasil utiliza modesto 1% do óleo de oliva
produzido no mundo.
O diretor da Mr. Man, empresa que comercializa os azeites espanhóis da
marca Ybarra no Brasil, Diego Man, acredita no boom dos azeites, em
razão do crescimento da informação, especialmente no item saúde – mesmo
que até agora os azeites da Espanha tenham ficado com 22% da fatia do
mercado brasileiro, o que significou um movimento de US$ 30 milhões.
Por tudo isso, a Mr. Man acaba de diversificar a oferta colocando três
novos produtos da Ybarra na classe Extra Virgem (o tipo mais puro, que
dispensa refino), no mercado nacional: Azeite Aromático, produzido 100%
da azeitona Hojiblanca, com aroma de ervas frescas, ligeiramente amargo
e picante com coloração verde amarelada; Azeite Intenso, um Extra Virgem
das variedades de azeitonas Hojiblanca e Picual; Azeite Gran Selección
Extra Virgem, um sofisticado blended das variedades Hojiblancas e
Arbequinas, que é caracterizada por render um azeite suave, doce e com
aroma de frutas maduras. “O consumidor
brasileiro já está apto a escolher variedades mais elaboradas e o
mercado para o extra-virgem só tende a aumentar”, avalia o empresário.
O sumo extraído das olivas, o azeite, está intrinsecamente vinculado aos
hábitos das culturas mediterrâneas desde sempre. Mas, é somente a partir
do Império Romano que as olivas passam a ter cultivo sistemático e
importância alimentar, figurando como um dos pilares da hoje famosa e
saudável “Dieta Mediterrânea” – que, trocando em miúdos, quer dizer:
trigo, azeite e vinho (complementado com verduras, frutas, lácteos e
pouquíssima carne vermelha).
"Zitoun" e "Zite" (oliveira e azeite) é etimologia de origem semita,
provavelmente fenícia. No idioma português, a palavra foi emprestada do
árabe: “az-zayt”, literalmente suco de azeitona; já os italianos
mantiveram o vocábulo latino “olio” – relativo à oliva. Seja como for, o
melhor de todos continua sendo o tipo “extra virgem”, prensado a frio.
Aqui o termo se refere a acidez. Segundo o COI (Conselho Internacional
da Olivicultura), ficou estabelecido que um extra virgem não pode
ultrapassar a 0,8% em acidez. Daí até 1,5% o azeite deve ser
classificado como simplesmente virgem. Acima desse índice estamos diante
de um azeite comum, necessitando de um processo de refino.
Por razões culturais e históricas, o azeite português segue sendo o mais
consumido e o predileto entre os brasileiros. Mas quem lidera a produção
do mundo é a Espanha, englobando 40% de todo o mercado mundial. O
segundo maior produtor é a Itália, com 21%, seguida pela Grécia,
responsável por 14%. Outros produtores, como Síria, Turquia e Marrocos,
respondem por 15% da produção. Temos aqui que incluir os “azeites do
Novo Mundo”, como os argentinos e chilenos – o primeiro, um fornecedor
tradicional para o vizinho mercado brasileiro e os chilenos (que há
muito se especializaram no agro-negócio de alto nível) estão abrindo
fronteiras lentamente.
E por falar em azeite português, a empresa que detém a marca Gallo está
festejando um índice nada desprezível: o azeite mais vendido no Brasil,
em 2006! A tradicional marca portuguesa de azeites Gallo bateu recorde
de vendas com a comercialização de 2,5 milhões de litros, o que
representa um crescimento de 40% em relação ao ano anterior. A Gallo
fechou o ano com um market share de 21,7% (A/C Nielsen 2006) no mercado
brasileiro e consolidou a liderança absoluta em
todas as regiões do país.
"Este aumento é bastante expressivo e pode ser creditado a confiança
conquistada entre o consumidor brasileiro, pois Gallo é uma referência
que está presente na história das famílias brasileiras, desde a década
de 30", afirma Rita Bassi, diretora-geral da Gallo Brasil. A diretora se
apressa em esclarecer que, a despeito do tradicionalismo, a marca
preferida dos brasileiros se empenha em agregar uma imagem moderna e
atual ao produto. Está ai como prova, a série de campanhas promocionais,
entre cursos, concursos, conferências na área da saúde e degustações
dirigidas que a marca vem promovendo nos grandes centros. Daí que, mesmo
sendo a líder de vendas em mercados não tão ilustrados e abastados, como
o Nordeste brasileiro (onde as embalagens de 250ml. estouram em vendas),
a Gallo não ousa em diversificar em produtos muito diferentes, em tipos
de azeitonas ou azeites aromatizados. “Daria um nó na cabeça do
consumidor”, alega Rita, que aponta a demanda crescente dos azeites,
como “o novo sonho de consumo, até mesmo nas classes C”. A empresa Gallo,
diante da tranqüila liderança no Brasil, acaba de lançar o Azeite Novo
Extra Virgem – azeitonas novas e de acidez abaixo de 0,3% - destinado a
esse emergente e melhor informado mercado que ela ajudou a formar.
“Uma parcela do consumidor brasileiro começa a conhecer e se interessar
pelo assunto”, argumenta Rita Bassi, aludindo que paralelamente ao
comércio é necessário criar uma “cultura do azeite”, assim como tem sido
feito em outros setores, a exemplo do vinho. Sim, porque azeite é um
universo tão ou mais complexo que seu “irmão de sangue” mediterrâneo.
Assim como as vinhas, as azeitonas variam de cepas, aromas, qualidades,
sabores. Garrafas de azeite também são datadas e sofrem os efeitos do
tempo, da luz; um azeite virgem, tal como o vinho branco, deve ser
consumido em no máximo 2 a 3 anos. E uma vez abertos, se oxidam,
alterando-se as características.
Embora o Brasil venha respondendo por apenas 1% do consumo mundial de
azeites (a parcimônia de 30 milhões de litros/ano), que atinge 3 milhões
de toneladas anuais, já se registram sinais de “vida inteligente” nesse
lado do planeta. Seja pelo viés da saúde, seja pelo ângulo da
sofisticação da gastronomia, o fato é que lojas especializadas, como a
Azaït, em São Paulo, estão encontrando um público ávido por novidades (à
parte a variedade respeitável já presente nas gôndolas de bons
supermercados).
O empresário Isaac Azar, que começou como importador e hoje trabalha com
inúmeras marcas encontráveis na AZaït, apostou todas as fichas no azeite
extra virgem. São mais de 70 variedades nessa linha, procedentes das
mais qualificadas zonas produtoras do mundo. O cliente da Azït pode
degustar de uma variada amostra antes de se decidir por um extra virgem
italiano, ou grego, ou da Andaluzia, do Líbano, ou um azeite da Provence
francesa. Aromatizados com ervas, trufas negras ou brancas, com pimentas
ou de azeitonas mais suaves, para pratos a base de pescados, tudo pode
ser encontrado nessa boutique de azeite, que também vem promovendo
cursos de degustação para maior conhecimento do assunto. Os vidros de
azeite mais procurados são os espanhóis e os italianos, informa a
gerente da casa, Marta Abdalla. “A maioria de nossa clientela é composta
de médicos, talvez porque eles já sabem de cor o que é bom para a
saúde”, avalia.
E aqui vai um resumo dos tópicos definidos por uma conferência mundial
de saúde, sobre os benefícios do azeite, veiculado pela Associação
Espanhola dos Exportadores de Azeite de Oliva (ASOLIVA):
O azeite de oliva virgem é uma fonte
saudável de ácidos graxos e de centenas de micronutrientes,
especialmente antioxidantes, como os compostos fenólicos, vitamina E e
carotenóides.
Na teoria dos radicais livres, o
envelhecimento é o resultado de danos oxidativos as células. Alguns
desses danos convertem-se em disfunções celulares. Um baixo nível de
ácido graxo monoinsaturado (do acido oléico) irá diminuir o estresse
oxidativo celular.
A efetividade de uma dieta com azeite de oliva virgem no fortalecimento
de membranas, por aumentar a resistência as modificações induzidas pelos
radicais livres, já foi relatado. Foi também demonstrado que
modificações oxidativas produzidas pela ingestão de gorduras fritas
possam ser neutralizados quando usado o azeite de oliva.
O melhor aproveitamento dos teores graxos
monoinsaturados (HDL) presentes nos azeites virgens se dá no consumo in
natura – sem aquecimento.
Para cozinhar, o óleo de oliva também é o
mais indicado, pois é a gordura que melhor suporta altas temperaturas
sem causar danos e oxidar, como outros óleos. Mas no caso, basta um
azeite comum, pois o extra virgem perde suas características se aquecido
acima de 40o .
(matéria publicada na Forbes Brasil / maio
2007)
|
CONHEÇA EXCELENTES Receitas DOS GRANDES CHEFS,
clique aqui. |
|
Jezebel Salem é jornalista há
24 anos e sua senda profissional, de algum modo, por
curiosidade, por gosto e por apetite mesmo, sempre bisbilhotou,
passou e acabou ficando pela cozinha..
>>>
Leia mais
jezebela@terra.com.br
|
|
 |