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 A Inigualável Cozinha Artesanal

 

 

A vida na fazenda foi parte importante da minha infância, antes, morando lá e, depois, passando todas as férias e feriados. Meus pais deixavam que enchêssemos a casa de amigos, que dificilmente recusavam um convite para uns dias no campo. O dia na fazenda era muito divertido, brincadeiras diferentes, sempre uma nova descoberta, mas havia um atrativo especial lá em casa: a comida, abundante, variada e toda produzida ali, desde o pão, a manteiga, o queijo, as geléias, a goiabada, a marmelada e, até mesmo o "cotechino" e o salame, quando se matava um porco. A comida lá de casa era realmente irresistível.

Nascida na Itália, minha mãe trouxe para o Brasil o costume da mesa farta e de conservar os alimentos, imprescindível nos lugares onde o inverno é muito rigoroso. Lembro-me de acompanhá-la na horta para ajudar a colher as ervilhas mais tenras, as vagens bem novinhas e as cenouras pequeninas.

Os anos passaram, os produtos industrializados foram lotando as prateleiras dos recém inaugurados supermercados, cada vez maiores. Houve até época,  em que o "feito em casa" chegou a ser visto como uma coisa menor. Alimento bom era o alimento comprado pronto. A inserção da mulher no mercado de trabalho, a agitada vida moderna, a crônica falta de tempo, contribuíram muito para que se visse na comida industrializada, pronta, congelada, enlatada, uma alternativa para alimentação doméstica. Durante muitos anos, o critério foi a novidade, a praticidade, o preço, sendo o sabor relegado a segundo plano.

Mas o tempo passou e as coisas mudaram. Lentamente, nas últimas duas décadas, a arte do preparo cuidadoso, o gosto pelo bem comer, a gastronomia e seus valores foram ganhando espaço por aqui e um novo consumidor foi se formando, em número cada vez maior - o gourmand, aquele que gosta de comer bem, que se deleita com a boa mesa e sente prazer em ir desvendando o universo gastronômico na teoria e, sobretudo, na prática.

Ouvimos muito falar dos gourmets, aqueles que apreciam e entendem de comidas e bebidas finas, e buscam extrair o máximo de prazer com elas. Estes também são em número cada vez maior entre nós, e a tendência é de crescimento, pois, provavelmente, todo gourmand se tornará um gourmet, já que esse parece ser um feliz "vício" irrecuperável... Mas essa é uma segunda etapa. Primeiro vem o gourmand.

Priorizando o sabor e a qualidade dos alimentos, os gourmands vão aos poucos resgatando o prazer da boa mesa em seu cotidiano, mesmo em tempos tão corridos. O cozinhar vai tomando uma outra dimensão, de atividade enfadonha e rotineira, vai se transformando em fonte de lazer, convívio e descobertas gustativas, mesmo com os mais frugais ingredientes e a mais simples das receitas. Uma saladinha? Tudo bem, mas com folhas fresquinhas e crocantes, bem cortadas, montadas com capricho num prato ou travessa adequados, com um tempero caprichado, um queijinho que se harmonize. A coisa vem vindo naturalmente, pois o paladar vai se apurando quanto mais mergulhamos na arte do bem comer e beber.

Essa nova postura, evidentemente, reflete-se no consumo e faz dos gourmands a grande mola propulsora dos produtos gastronômicos diferenciados, boa parte deles produzidos de forma artesanal, preservando os sabores e os saberes das cozinhas caseiras, como a da fazenda da minha infância.

É para falar desses sabores e saberes que criamos a coluna Sapori Gourmand, e eu estarei aqui com vocês, a cada mês. Tenho certeza de que teremos saborosos momentos juntos!!

 Angela Rappa

 

 

 

 

Angela Rappa é empresária, especialista em conservação de alimentos e amante dos prazeres da boa mesa. Estudiosa da gastronomia,  ela escreve no Correio Gourm@nd partilhando conosco um pouco de seus conhecimentos e sua experiência como diretora da Sapori, uma das melhores empresas gourmands do país..

angela@sapori.com.br

 

 

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Atualizado em: 18 julho, 2007 .