
Carambola pode
ser fatal para doente renal crônico
Uma pesquisa
iniciada em 1996 na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da
Universidade de São Paulo (USP), descobriu que a carambola
possui uma neurotoxina (só atua no sistema nervoso) que pode
levar os doentes renais crônicos à morte. "Pacientes com
insuficiência renal estão proibidos de comerem o fruto ou o doce
ou ingerirem o suco de carambola", afirma o professor associado
do Departamento de Bioquímica e Imunologia da faculdade, Joaquim
Coutinho Neto. A cura dá-se com a hemodiálise.
Em 35 casos documentados com doentes nessa situação, o
médico-assistente da Divisão de Nefrologia do Hospital das
Clínicas, Miguel Moysés Neto, constatou sete óbitos, dois
anteriores ao início do estudo.
"A carambola é saudável, boa e rica em vitamina C, e só faz mal
às pessoas que tenham insuficiência renal", afirma Coutinho. Ele
recomenda ainda atenção aos diabéticos que tenham lesão renal e
epilépticos em tratamento.
Moysés acrescenta que os pacientes que fazem diálise peritonial
e até os que não fazem a diálise também não devem alimentar-se
de carambola para não correr riscos. Coutinho revela ainda outro
detalhe curioso: a toxina da fruta age como um inseticida
natural. E um inseticida comercial está em estudo.
A pesquisa começou quando Moysés recebeu um paciente que fazia
diálise, de cerca de 54 anos, em agosto de 1996. Ele tinha
sintomas estranhos, como confusão mental e soluços incoercíveis
(intratáveis). Após 36 horas, ele morreu. Os exames clínicos
nada constataram. A única diferença era que o paciente tomou
antes um suco de carambola.
Moysés sabia que pesquisadores de Botucatu, em 1992, haviam
citado que vários pacientes renais tiveram soluços quando um
deles distribuiu carambolas aos colegas, antes de uma sessão. Os
parentes nada apresentaram. Suspeitava-se que os frutos tinham
agrotóxicos, mas não pesquisou-se e ficou uma lacuna na
literatura médica até o surgimento do paciente de Ribeirão
Preto, que tinha um pé da fruta no fundo do quintal, descartando
a possibilidade do uso de agrotóxico.
Uma semana após a morte do paciente, Moysés atendeu outro que
tinha tomado meio litro de suco de carambola. A hemodiálise
curou-o e o médico avisou os demais que a carambola poderia ter
uma toxina. Para confirmar isso, telefonou para Coutinho e pediu
uma análise da fruta. Coutinho injetou sucos no sistema nervoso
em cerca de 20 camundongos, verificando que todos tiveram
convulsões - alguns morreram e outros tiveram um mal epiléptico.
Porém, injetado no estômago, nada apresentaram.
Em seguida, o pesquisador tratou ratos com cloreto de mercúrio,
provocando lesões renais crônicas nos animais, para simular um
humano nessa situação. Aí, com o suco injetado no estômago, os
ratos apresentaram soluços e convulsões.
"A neurotoxina da carambola, ingerida por uma pessoa normal que
come a fruta, é absorvida pela digestão, filtrada pelo rim e
excretada, sem sintomas", diz Coutinho. "Mas, se o rim não
funciona, essa toxina é absorvida, concentra-se no sangue,
atinge os neurônios em concentração maior e provoca soluços e
convulsões."
A partir daí, intensificaram-se os estudos. Outros pacientes
intoxicados foram atendidos, quatro morreram (de Divinópolis,
Uberaba, São Paulo e Franca) - os outros dois, um de Ribeirão
Preto e outro de Franca, morreram antes do início da pesquisa.
"Um intoxicado grave morre até com o tratamento; a convulsão
avançada é quase irreversível", explica ele.
O primeiro trabalho publicado no mundo sobre esse assunto
ocorreu em 1998, pela revista européia Nephrogy Dialysis
Transplantation, quando Moysés e Coutinho descreveram os seis
primeiros casos. Até setembro deste ano, o segundo trabalho, com
32 casos (não deu tempo de incluir os três últimos) será
publicado pela mesma revista. Cientistas chineses publicaram um
artigo nos Estados Unidos em 2000 também sobre a carambola com
doentes renais crônicos, citando 20 casos e oito óbitos.
Coutinho diz ainda que a carambola tem dez variedades, com
diferenças de uma para outra. As mais ácidas têm mais toxina e
não bicham, enquanto as maiores e mais coloridas têm menos
toxina. "A árvore, em sua evolução, selecionou a toxina para se
defender do ataque das moscas das frutas", diz o pesquisador. "É
um inseticida biológico, natural."
Ele diz que os agricultores podem plantar pés de carambolas ao
redor dos pomares ou colocar frutos em pontos estratégicos para
combater as moscas. O pesquisador tenta desenvolver um
inseticida comercial a partir da toxina já purificada. Após
determinar a estrutura química completa, será feita a síntese
laboratorial para chegar-se ao inseticida, provavelmente no
final de 2003, após testes de campo.
Fonte: Estadão
29 de maio de 2002
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