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MEDICINA POPULAR

Usos e saberes do povo na cura de doenças

 

 

 

 

por Lucia Gaspar

 

 

A medicina popular ou rústica é a utilização pelo povo de drogas, substâncias, gestos ou palavras para obter mais saúde para as pessoas. Não é apenas uma coleção de plantas medicinais, usadas para prevenir e curar doenças. Há também o seu lado mágico, suas ações e orações que o povo utiliza na cura dos seus males físicos e mentais.

A sua origem pode ter sido a observação. Vendo o teju lutar com uma cobra venenosa e, ao ser picado por ela, parar a luta e comer um pedaço de batata de cabeça de negro como antídoto ou vendo o cachorro comer capim para curar suas dores de barriga, o homem primitivo descobriu que certas plantas curam alguns males.

O uso de remédios feitos com flores, frutos, folhas, raízes e tubérculos de determinadas plantas é tão antigo quanto os primórdios da história da humanidade. Asiáticos, europeus, africanos, americanos e australianos sempre buscaram e continuam encontrando nas plantas alívio ou cura para os seus males.

Os laboratórios farmacêuticos só começaram a se desenvolver no início do século 20. Nas décadas de 1920 e 1930, os remédios eram preparados de forma artesanal - ou aviados, como se dizia na época nas boticas ou farmácias.

No Brasil, ela é o resultado de uma série de aculturações de técnicas utilizadas pelo português, pelo indígena e pelo negro. A contribuição do pajé ameríndio, do feiticeiro negro e do bruxo europeu foi de tal maneira misturada que hoje seria difícil distinguir o que é puramente indígena, negro ou branco.

Existem várias formas de medicina popular: a fitoterapia, a medicina mágica, a medicina mística ou religiosa, a medicina escatológica ou excretoterapia.

A fitoterapia é a que utiliza as plantas medicinais, através de chás, lambedouros, garrafadas, ungüentos, purgantes, emplastros, remédios populares que são chamados de meizinhas na região Nordeste do Brasil. Algumas das meizinhas mais comuns são: folha de pimenta, em forma de emplastro, para picada de marimbondo; chá da folha do abacateiro, para problemas renais; sumo de malva com mel, para tosse; água de arroz adocicada ou chá da folha de pitomba, para hemorragias; sumo de arruda, para convulsões.

É uma herança que os índios nos deixaram e uma das mais antigas formas de tratamento de doenças. Os africanos também trouxeram suas ervas nativas que se mesclaram com especiarias do Oriente. Os portugueses disciplinaram o seu uso e investigaram com mais profundidade as propriedades terapêuticas de cada planta, cabendo aos jesuítas as suas anotações, o que fez com que fossem difundidas pela Europa e o mundo científico, as propriedades terapêuticas, por exemplo, do quinino, da ipecacuanha e do curare.

A medicina mágica procura curar o que de estranho foi colocado pelo sobrenatural no doente ou extirpar o mal que o faz sofrer. Está muito vinculada aos ritos afro-brasilieros e indígenas, especialmente os de macumba, candomblé ou umbanda e dos catimbós. Baseia-se também em tabus alimentares ou de conduta. Os índios nos transmitiram os preceitos mágicos da cura pela defumação; dos negros malés, vindos da Nigéria, assimilamos os conceitos do mágico e dos demônios como causadores de doenças. As técnicas empregadas na medicina mágica são as benzeduras, conjunto de rezas, gestos ou palavras ditas por pessoas especializadas como o curador, rezador ou benzedor; as simpatias, uma forma de benzedura, mas que podem ser executadas por qualquer pessoa; os patuás, amuletos, santinhos e talismãs, elementos materiais capazes de prevenir e evitar doenças e perigos, entre outros.

A medicina mística ou religiosa usa a religião como força mágica da cura. Faz-se uma adivinhação simbólica para saber qual é a divindade ofendida, pela quebra de um tabu ou desobediência de uma determinação divina e, através de ritos, busca-se homenageá-la, como por exemplo é feito no candomblé. Na devoção popular alguns santos da religião católica romana são invocados como especialistas em um ramo da medicina. Umas orações visam a proteção das pessoas, outras, a cura das doenças: São Sebastião cura feridas; São Roque cura e evita pestes; São Lourenço dor de dentes; São Brás protege das enfermidades da garganta e salva de engasgos; rezas para São Bento protegem contra mordidas de cobras, insetos venenosos e cães hidrófobos; Santa Luzia as doenças dos olhos; Santa Ágata os pulmões e vias respiratórias; São Lázaro a lepra e as feridas sérias; São Miguel os tumores malignos e benignos; Nossa Senhora do Bom Parto a gestação e o parto.

A chamada medicina escatológica ou excretoterapia utiliza como método terapêutico substâncias ou ações repugnantes ou anti-higiênicas, como fezes, urina, saliva, cera de ouvido. Estas práticas muito antigas, já eram utilizadas pelos egípcios. No Brasil, especialmente na região Nordeste, algumas fórmulas da excretoterapia ainda são muito comuns, como o uso de saúva torrada com café para crises de asma; chá de fezes de cachorro embranquecidas pelo sol, contra o sarampo; estrume úmido, friccionado na pele, para curar frieira; urina de vaca adicionada ao leite para tratar a coqueluche; a saliva logo ao se levantar, antes de falar qualquer palavra, serve para curar feridas.

A medicina popular nunca deixou de existir no Brasil, principalmente do Nordeste, onde continua sendo largamente usada tanto no litoral como no agreste e no sertão, especialmente pela população de baixa renda, que não dispõe de recursos para comprar produtos farmacêuticos.


benefícios das chamadas “drogas vegetais” passam de geração em geração. Quase todo mundo já ouviu falar de alguma planta, folha, casca, raiz ou flor que ajuda a aliviar os sintomas de um resfriado ou mal-estar. Unindo ciência e tradição, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quer popularizar esse conhecimento, esclarecendo quando e como as drogas vegetais devem ser usadas para se alcançar efeitos benéficos. A medida faz parte da RDC 10, publicada nesta quarta-feira (10).

“O alho é um famoso expectorante e muita gente tem o hábito de usá-lo com água fervente. No entanto, para aproveitar melhor as propriedades terapêuticas, o ideal é deixá-lo macerar, ou seja, descansar em água à temperatura ambiente”, explica a coordenadora de fitoterápicos da Anvisa, Ana Cecília Carvalho.

Inaladas, ingeridas, usadas em gargarejos ou em banhos de assento, as drogas vegetais têm formas específicas de uso e a ação terapêutica é totalmente influenciada pela forma de preparo. Algumas possuem substâncias que se degradam em altas temperaturas e por isso devem ser maceradas. Já as cascas, raízes, caules, sementes e alguns tipos de folhas devem ser preparados em água quente. Frutos, flores e grande parte das folhas devem ser preparadas por meio de infusão, caso em que se joga água fervente sobre o produto, tampando e aguardando um tempo determinado para a ingestão.

Outra novidade da resolução diz respeito à segurança: a partir de agora as empresas vão precisar informar à Agência sobre a fabricação, importação e comercialização dessas drogas vegetais no mínimo de cinco em cinco anos. Os produtos também vão passar por testes que garantam que eles estão livres de microrganismos como bactérias e sujidades, além da qualidade e da identidade.

Além disso, os locais de produção deverão cumprir as Boas Práticas de Fabricação, para evitar que ocorra, por exemplo, contaminação durante o processo que vai da coleta, na natureza, até a embalagem para venda. As embalagens dos produtos deverão conter, dentre outras informações, o nome, CNPJ e endereço do fabricante, número do lote, datas de fabricação e validade, alegações terapêuticas comprovadas com base no uso tradicional, precauções e contra indicações de uso, além de advertências específicas para cada caso.

Drogas vegetais e fitoterápicos

As drogas vegetais não podem ser confundidas com os medicamentos fitoterápicos. Ambos são obtidos de plantas medicinais, porém elaborados de forma diferenciada. Enquanto as drogas vegetais são constituídas da planta seca, inteira ou rasurada (partida em pedaços menores) utilizadas na preparação dos populares “chás”, os medicamentos fitoterápicos são produtos tecnicamente mais elaborados, apresentados na forma final de uso (comprimidos, cápsulas e xaropes).

Todas as drogas vegetais aprovadas na norma são para o alívio de sintomas de doenças de baixa gravidade, porém, devem ser rigorosamente seguidos os cuidados apresentados na embalagem desses produtos, de modo que o uso seja correto e não leve a problemas de saúde, como reações adversas ou mesmo toxicidade.

 

 

 

 

Fonte: GASPAR, Lúcia. Medicina popular. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009

 


 

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Atualizado em: 28 junho, 2014.