Viajar e comer - prazeres indissolúveis

 

 

BREVE HISTÓRIA DA HOTELARIA E DO TURISMO


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Turismo sempre foi um elemento importante no processo civilizatório. A conquista e a descoberta de novos povos, espaços territoriais e culturas estimularam o homem a repensar seus valores e costumes, criando um choque de diferenças, mas, também, uma rede de influências etno culturais que fizeram e fazem História.


Conhecer os primórdios do Turismo e da Hotelaria no mundo e, em especial, no Brasil, é seguir a trajetória do chamado “mundo civilizado” e desvendar elos comuns da sociedade humana. É descobrir como indivíduos tão diferentes culturalmente guardam entre si um sentimento comum de fraternidade e cortesia, onde “compartilhar” da mesa e do abrigo transformou a hospitalidade numa “virtude sagrada”, como afirmou o sociólogo tunisiano Abdelwahab Bouhdiba.


A seguir, você verá uma rápida, mas interessantíssima, viagem pelas tradições e Histórias de diferentes povos no mundo: do antigo mundo greco-romano ao Brasil de nossos tempos. Vamos acompanhar das expedições dos cristãos aos lugares santos, as viagens transoceânicas dos grandes navegadores portugueses, das excursões coletivas do inglês Thomas Cook na segunda metade do século 19 aos primeiros aviões comerciais que cortaram os nossos céus e os primeiros hotéis a encantarem os turistas estrangeiros no Brasil.

 

Confira esta síntese histórica que registra os primórdios e os principais aspectos da evolução do Turismo, esta fascinante atividade econômica que, até hoje, atrai e encanta o mundo como um fenômeno de relações pessoais, fonte de emprego, renda, mas, também, de conhecimento e Paz Social.

 

As raízes do Turismo e da Hotelaria no Mundo

 

O peregrino em romaria por lugares santos; o mercador em busca de novos produtos e clientes; o conquistador que almeja expandir seus domínios e riquezas; o aventureiro disposto a experiências exóticas. O explorador antevendo descobertas. O que há em comum entre essas pessoas? - Sem dúvida, a vontade de ultrapassar fronteiras, a curiosidade de conhecer o novo. E, na raiz desses dois desejos, molda-se a mola propulsora do Turismo através dos tempos.

 

Como isso começou? Difícil precisar. Há quem acredite que um turismo embrionário era praticado por povos primitivos ainda na pré-história. Registros arqueológicos na Caverna de Madasin, nos Pirineus, identificaram que seus habitantes, há 13.000 anos, viajavam até o mar e retornavam (LEAKEY, 1999 apud BADARÓ, 2005).

 

É muito provável que já houvesse algum olhar turístico nas longas viagens marítimas dos fenícios, inventores do comércio e da moeda, três milênios antes da era cristã, ou nas caravanas dos povos mesopotâmios (sumérios, babilônios, assírios) que atravessavam as regiões áridas do Oriente Médio, dando início a um culto singular à hospitalidade. Apesar da vida nômade desses povos, sempre havia uma tenda pronta a receber os estranhos.

 

Alguns estudiosos atribuem ainda um dos marcos iniciais do turismo na Antiguidade à viagem da rainha de Sabá, que no século 10 a.C. deixou seu palácio a sudoeste da Arábia para fazer uma visita ao Rei Salomão, em Jerusalém.

 

Mas foi na Grécia Antiga que o Turismo começou a tomar forma como atividade econômica. Por volta do século 7 a.C., os eventos desportivos realizados a cada quatro anos na  cidade-estado de Olímpia atraíam não apenas atletas como, também, espectadores. Os Jogos Olímpicos motivaram as primeiras viagens de lazer, que se tornaram importantes a ponto de se fazer trégua nas guerras para salvaguardar os viajantes. Todos os demais pontos do trajeto, e não apenas Olímpia, adaptaram-se e criaram estruturas de alojamento, alimentação e transporte para esses primeiros turistas (CEZAR, 2005).

 

A expansão do Império Romano trouxe motivos ainda mais numerosos e atraentes para se viajar. As conquistas territoriais fizeram surgir intenso intercâmbio comercial, dando origem também a viagens de lazer, em que não faltavam atrações como espetáculos circenses e lutas de gladiadores. Os romanos, portanto, contribuíram de forma significativa para o que viríamos a chamar de Turismo, como afirma Rui Aurélio de Lacerda Badaró, no artigo “O direito do Turismo através da história e sua evolução”.

 

“Os romanos podem ser considerados os primeiros a viajar por prazer. Diversas pesquisas científicas (análise de azulejos, placas, vasos e mapas) revelaram que o povo romano ia à praia e a centros de rejuvenescimento e tratamento do corpo, buscando sempre divertimento e relaxamento” (BADARÓ, 2005).

 

Roma foi o centro do maior império do mundo ocidental na Idade Antiga e por quase dois séculos viveu um período de relativa paz, sob forte domínio militar, que ficou conhecido como “Pax Romana” (de 29 a.C., quando Augusto César declarou o fim das guerras de conquista, até 180 d.C., com a morte de Marco Aurélio). Durante essa “paz romana”, foi intensa a construção de estradas, hospedarias e até mesmo centros de tratamento termal, no vastíssimo império que ia da Inglaterra até a Mesopotâmia, incluindo metade da Europa, grande parte do Oriente Médio e do norte da África.

 

* * *

 

O intercâmbio comercial e as movimentações militares promovidas pelo Império Romano deram origem não apenas ao costume das viagens de lazer como também às próprias palavras que passaram a designar essa nova atividade humana.

 

A palavra francesa tour, raiz do atual conceito de turismo, provém do substantivo latino tornus (“volta”) ou do verbo tornare (“voltar”). Inicialmente significava “movimento circular” e com o tempo passou a designar também “viagem de recreio, excursão”. O termo francês Tourisme (1643) disseminou-se nos mais diversos idiomas, como se vê no vocábulo inglês Tourism (1811). Na própria etimologia da palavra “Turismo” está refletida a evolução da atividade. Seu primeiro registro em português, no século XX, já designava bem mais do que “uma viagem de ida e volta” (CUNHA, 1982).

 

Ainda mais longe nessa viagem etimológica foi o suíço Arthur Haulot, ao buscar as origens do termo Tour, chegando a levantar suas raízes no hebreu antigo. Segundo ele, tur (em hebraico antigo) quer dizer “viagem de descoberta, de exploração, de reconhecimento” (CÉZAR, 2005).

 

Também o termo “Hospitalidade” teve origem no Império Romano. A palavra hospitium designava o local em que era possível conseguir, durante as viagens, instalações em caráter temporário para alimentação e repouso. Hospitale e hospitalicum eram outras expressões romanas que designavam casa para hóspedes (hospes, hospitus).

 

“Segundo o conceito tradicional das relações entre as pessoas - diz Abdelwahab Bouhdiba - o código da hospitalidade é sagrado. Beber da mesma água e comer do mesmo sal cria um vínculo místico e a hospitalidade é uma comunhão que cria laços duradouros” (apud BELCHIOR e POYARES, 1987).

 

O uso do cavalo como transporte nas vias e estradas romanas fez surgir ainda novos tipos de hospedagem: o stabulum (acomodações para o viajante e tratamento da montaria), as mutationes (mantidas pelo Estado, destinadas à troca de animais e ao repouso de viajantes), as mansiones (destinadas a abrigar tropas militares em marchas) e as tabernae (onde se vendiam produtos da terra, comidas e bebidas).

 

Diante da extensão do Império, era inevitável a incorporação de usos e costumes de hospitalidade dos povos conquistados. Na etimologia da palavra “albergue” pode-se ver a influência de bárbaros (do gótico haribergen, hospedar) ou de árabes (berge). Para Belchior e Poyares, a semelhança entre os dois étimos indica uma provável origem comum.

 

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O declínio do Império Romano e sua queda por volta do ano 400 d.C. marcaram o fim do período inicial da história do Turismo. As guerras sucessivas prejudicaram as estradas e o comércio tornou-se muito difícil. Acabaram as viagens como forma de lazer. A partir daí, o Turismo ganha características de aventura ou de manifestação da fé.

 

Com a expansão do Cristianismo no mundo, multiplicaram-se as peregrinações religiosas a Jerusalém, mais especificamente à Igreja do Santo Sepulcro, construída pelo imperador Constantino em 326 d.C. Os peregrinos eram conhecidos então como “palmeiros” e, a partir do século 6, passam a ser chamados de “romeiros”, já que a cidade de Roma foi incluída nos roteiros das peregrinações (BADARÓ, 2000).

 

As viagens de caráter religioso se intensificaram entre os séculos 7 e 9. Foi desse período final, por exemplo, a descoberta da tumba do apóstolo São Tiago, no norte da Espanha, o que atraiu grande veneração a ponto de motivar o peregrino francês Aymeric Picaud a escrever as histórias sobre o apóstolo e um roteiro de viagem sobre a travessia da França até o sepulcro de São Tiago. Este roteiro, editado em 1140, foi considerado o primeiro guia  turístico impresso da Europa. E até hoje o “Caminho de Santiago de Compostela” é um dos roteiros mais visitados do mundo.

 

A peregrinação a Santiago de Compostela suscitaria também as primeiras excursões pagas registradas pela História, organizadas por adeptos dos Jacobitismo, movimento político surgido na Escócia em resposta à deposição de James II da Grã-Bretanha.

 

No século 11, Jerusalém foi dominada pelos turcos seljúcidas, que nessa época ocupavam grandes extensões da Ásia central e ocidental. A partir daí, entre os séculos 11 e 13, com a motivação inicial de libertar o Santo Sepulcro das “profanações” turcas, o mundo cristão organizou as expedições militares-religiosas conhecidas como Cruzadas.

 

As pousadas que até então funcionavam principalmente para os viajantes religiosos, em nome da caridade samaritana, assumiram características de negócio lucrativo diante do movimento intenso de soldados, peregrinos e mercadores nos caminhos europeus, e um grande número de novos estabelecimentos foi aberto nesse período. Essa mudança do perfil da hotelaria, firmando-se agora como atividade profissional, tem como marco significativo a criação do primeiro grêmio dos proprietários de pousadas, em Florença, na Itália, no ano de 1282 (BADARÓ, 2005).

 

A partir do século 13, portanto, as relações entre Comércio e Turismo tornaram-se mais sólidas, ficando difícil separar uma atividade da outra. Neste cenário surgiu a Liga Hanseática,um grupo mercantil que controlava o comércio e as feiras em mais de 90 cidades, trazendo mercadorias de Novgorod, na Rússia, e comercializando-as com preços tabelados (BOYER, apud Badaró, 2005). Além de franquias e entrepostos no norte europeu, a Liga Hanseática organizava grupos de viagem para percorrer diversas cidades, visando mostrar aos viajantes sua organização e suas atividades mercantis. “Esses grupos eram acolhidos por pousadas já predeterminadas pela liga, onde eram tratados de forma diferenciada com massagens, vinhos e outras peculiaridades de cada região”, afirma Rui Aurélio Badaró, no artigo “O Direito do Turismo através da história e sua evolução”. Estavam plantadas as raízes também do turismo de negócios.

 

* * *

 

Nos séculos 14 a 16, o Renascentismo floresceu como um período de intensa produção artística e científica na Europa. Viajar passou a ser uma ambição cultural, uma oportunidade para acumular conhecimentos, aprender línguas e desfrutar aventuras.

 

Até então, a atividade turística era coisa para jovens, em sua maioria acompanhados de professores ou religiosos (BADARÓ, 2005). Eram viagens realizadas principalmente pela nobreza masculina e pelo clero. Na Europa do século 16, alguns países se destacavam como centros de efervescência cultural. Visitar esses países era, antes de mais nada, um aprendizado indispensável à boa educação. E se estas eram viagens “educativas”, necessário se fazia contar com um professor ou tutor que falasse a língua do país visitado e que conhecesse os hábitos e costumes locais.

 

Florença e Roma despontaram como destinos culturais, desencadeando na sociedade inglesa, por exemplo, uma verdadeira “febre italiana”. Os nobres que não conhecessem a Itália sentiam-se inferiores, inclusive porque formavam-se clubes reservados somente àqueles que já tivessem viajado às capitais do Renascimento (BADARÓ, 2005).

 

Apesar do incremento do Turismo comercial, a experiência de hospedar peregrinos, deixada pelo período das Cruzadas, havia reforçado nas ordens religiosas o compromisso de acolher pobres e enfermos. O estatuto da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa, por exemplo, datado de 1516, evidencia o compromisso de “abrigar os viajantes e os pobres”. Mas, com o aumento da quantidade de viajantes, a dificuldade de manter num mesmo ambiente doentes e sãos fez com que estes espaços de acolhimento se separassem em “hospitais” e “albergarias”.

 

Nas últimas décadas do século 18, surgiu na Europa o Romantismo, movimento artístico e filosófico que se caracteriza por uma visão de mundo centrada no indivíduo, na subjetividade e na emoção. Em tempos de Romantismo, o Turismo tornou-se também “romântico”. Jean Jacques Rousseau, pai da “Teoria do Bom Selvagem”, viajou a pé por toda a França em 1776 e, dos relatos de viagem, nasceu a obra “La nouvelle Héloïse”, sagrando seu autor como o “primeiro turista do Romantismo”.

 

Nessa época ainda as atividades lúdicas e de recreação firmavam-se como fortes ingredientes do Turismo. Os jogos de azar ganharam espaço na sociedade e nasceram na Europa os primeiros cassinos.

 

No início do século 19, mais precisamente em 1804, entrou em vigor na França um novo código civil, o Código de Napoleão, que deu forma jurídica às principais conquistas da Revolução Francesa de 1789 e serviu de inspiração a mais de 70 países, estabelecendo os traços da moderna sociedade ocidental. Nesse código, pela primeira vez na história da humanidade, foi regulamentada a responsabilidade civil do agente hoteleiro.

 

Em 1841, quando da realização de um congresso antialcoólico na Inglaterra, o inglês Thomas Cook organizou a primeira viagem coletiva da história do Turismo internacional.

 

Quatorze anos depois, os negócios de Cook haviam prosperado e suas viagens passaram a envolver transporte, hospedagem, alimentação e serviços de guia.

 

 

Fonte: Confederação Nacional do Comércio

Conselho de Turismo da Confederação Nacional do Comércio
comemoração dos 50 anos de atividades
2005
 

 

 

 
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Atualizado em: 02 janeiro, 2018.