Viajar e comer - prazeres indissolúveis

 

 

BREVE HISTÓRIA DA HOTELARIA E DO TURISMO

 

 

PRIMÓRDIOS DO TURISMO E DA HOTELARIA NO BRASIL

 

A célebre carta ao Rei de Portugal, Dom Manuel, do escrivão Pero Vaz de Caminha é o primeiro registro de um episódio de “hospedagem” no Brasil.

 

“O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim (...). E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram” (CAMINHA, Pero Vaz. Carta a El Rei D. Manuel).

 

O trecho acima narra o primeiro contato entre duas tradições de hospitalidade: a indígena e a portuguesa. Caminha nos conta que o Capitão recebeu os indígenas sentado em uma cadeira, “bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço”, e mandou acender tochas à sua chegada. Tudo nos jovens índios era inusitado: o beiço furado e atravessado por um osso, os cabelos corredios rapados por cima das orelhas, adornados com penas coloridas, e a sua total falta de formalidade quando subiram a bordo. Não quiseram comer quase nada do que lhes serviam: pão e peixe cozido, doces, mel, figos passados. “Se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora”, conta o escrivão. O mesmo fizeram com a água e com o vinho que lhes trouxeram em uma taça. “E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas”. Foi então que Cabral mandou pôr almofadas sob suas cabeças e um manto para cobri-los.

 

De certa forma, esse curioso encontro de tradições de hospitalidade retrata as origens do estilo brasileiro de “receber”. De um lado, os índios, que compartilharam com os navegantes vindos de além-mar a exuberância da terra em que viviam. Em sua natural inocência, acolheram os europeus como “mensageiros de tupã”, como disse José de Alencar, embora muitas vezes tenham recebido em troca a escravidão e a guerra. De outro lado, os portugueses, que herdaram dos antigos a visão sagrada da hospitalidade, como “coisa do céu, caída na terra”, conforme observou o historiador Diodoro da Sicília, no século 1 antes de Cristo (apud BELCHIOR e POYARES, 1987).

 

Nas raízes da hospitalidade portuguesa misturam-se diferentes influências étnicas, desde o proverbial costume hospitaleiro dos árabes, que dominaram a Península Ibérica de 711 a 1492, aos princípios referenciais do Cristianismo. O Apóstolo Paulo, em sua Epístola aos Romanos, afirma:

 

“[...] Esmerai-vos na prática da hospitalidade” (Romanos, 12:13 - Novo Testamento).

 

Quando a frota de Cabral aportou na costa brasileira, Vasco da Gama já havia atingido a Índia (1498), tornando as viagens ao Oriente um negócio bastante lucrativo. Já no novo mundo, era preciso colonizar o território, e isso implicava em não só povoar todo o litoral para impedir invasões dos franceses, mas também explorar o interior. Surgiram então as expedições bandeirantes.

 

Os caminhos abertos pelos bandeirantes, mais tarde usados no trânsito de pessoas e produtos entre o litoral e as regiões mineradoras, fizeram surgir os primeiros focos de hospedagem pelo interior do Brasil. Ranchos toscos e rústicos, inicialmente improvisados à beira das estradas para abrigar os viajantes, assemelhados às antigas estalagens européias, foram o embrião da atividade hoteleira e comercial nessas regiões. Deve-se a esses ranchos, e portanto à nascente hotelaria em nosso País, a origem de centenas de cidades.

 

“Não se paga hospedagem, mas ao pé do rancho há uma venda em que o proprietário vende o milho que serve de alimento aos animais dos itinerantes; indeniza-se assim amplamente da despesa que fez para levantar o rancho, e citaram-me o nome de proprietários que possuem até cinco ranchos à beira da estrada” (SAINTHILAIRE, August apud BELCHIOR e POYARES, 1987).

 

Esse tipo de hospedagem perdurou até o século 20, no rumo dos tropeiros que conduziam rebanhos de gado bovino e eqüino, principalmente provenientes do Sul do país. Antes de existirem estradas e caminhões para transportá-los, os rebanhos faziam viagens de milhares de quilômetros, em numerosas comitivas. Em uma etapa posterior aos ranchos primitivos, alguns sitiantes reservavam pastos com água para acolher os animais em trânsito e construíam aposentos próprios, com fogões de lenha, para os grupos de tropeiros. O pagamento pelos pernoites, além de dinheiro, não raro era feito em cabeças de gado, promovendo assim o incremento de fazendas. Hoje, muitos hotéis e restaurantes de caminhoneiros ao longo das estradas ou em cidades interioranas ostentam como decoração as rodas dos carroções que transportavam bagagens e alimentos das tropas nesses trajetos.

 

* * *

 

Nas cidades do Brasil Colônia, a hospitalidade típica dos portugueses fez com que a hotelaria demorasse a se consolidar como atividade comercial. Os quartos de hóspedes eram imprescindíveis nas boas residências em todo o país, não apenas em função das tradições e do dever cristão de dar abrigo aos viajantes. A gentileza e a generosidade do anfitrião eram fatores de prestígio na sociedade. Os forasteiros sempre traziam novidades de outras terras. E, algumas vezes, a relação entre anfitrião e hóspede envolvia interesses materiais e políticos.

 

Com a mesma facilidade não contavam os pobres ou os estrangeiros sem referências e  cartas de recomendação. Mas estes viajantes tiveram a seu favor o espírito samaritano das ordens religiosas. A exemplo do ocorrido na Europa durante a Idade Média, o caráter filantrópico das Ordens Católicas deu origem às primeiras instituições hospedeiras no Brasil.

 

O Terreiro de Jesus, em Salvador, primeira capital do Brasil Colônia, foi endereço de uma Casa dos Hóspedes, no Colégio de Jesus, que recebeu personalidades ilustres, vindas da Europa, e também pessoas que necessitassem de acolhida caridosa. No Rio de Janeiro, aposentos para hospedagem foram construídos num prédio anexo ao Mosteiro de São Bento e um abrigo para desocupados foi instalado junto ao Convento da Ajuda, no século 18. Além disso, instituições da Igreja em vários pontos do país construíram “hospícios” (do latim hospitium, hospedagem, pousada) para acomodar religiosos em viagem.

 

* * *

 

Naqueles dias de janeiro a março de 1808, nunca antes o Brasil tinha vivido tamanha movimentação, em três séculos de existência como colônia portuguesa. A família real, todos os nobres, os oficiais superiores, os altos funcionários e suas famílias, totalizando mais de 10 mil pessoas, haviam chegado com o máximo de bagagem que foi possível trazer em 14 navios abarrotados. Em contraste, com o esvaziamento que as tropas de Napoleão encontraram em Lisboa, as ruas do Rio de Janeiro tornaram-se um insólito cenário de aglomeração e comemorações.

 

Como alojar toda aquela gente de uma hora para outra, numa cidade sem qualquer estrutura para isso? Apenas duas letras, “P.R.”, afixadas nas portas das melhores residências, resolveram o problema. A sigla indicava que o Príncipe Regente, em sua autoridade incontestável, tinha escolhido e requisitado aquele imóvel, que deveria ser desocupado de imediato por seus moradores para que nele se acomodassem membros da comitiva recém chegada. A indignação de alguns dos despejados, a reverente resignação de outros e o protesto irônico dos cariocas de então traduziram a sigla como “ponha-se na rua” ou “prédio roubado”.

 

É claro que não se pretende aqui encarar esse episódio como um marco inicial da história da hotelaria no Brasil. Mas não há dúvida de que a súbita chegada de tão numeroso contingente ao Rio de Janeiro, em função da transferência da corte portuguesa para a colônia do novo mundo, suscitou um verdadeiro “choque de demanda”, a partir do qual a atividade hoteleira encontraria os motivos e condições para surgir e se desenvolver.

 

* * *

 

Mas nem só a transferência da família real para o Brasil determinou as mudanças na hotelaria e na atividade turística no País. Antes da “abertura dos portos às nações amigas”, decretada pelo Príncipe Regente Dom João, a falta de hospedagem no Brasil não chegava a ser um problema crítico. Apesar de pouquíssimos e de suas precárias condições, os albergues existentes atendiam aos eventuais visitantes de outras capitanias que não tinham prestígio, recomendações ou amigos na cidade.

 

Vale lembrar que no Rio de Janeiro, tripulantes dos navios estrangeiros (não-portugueses) que entravam na baía de Guanabara não tinham permissão para permanecer em terra após o pôr-do-sol. Tinham que ir dormir a bordo. Essa era também a opção de grande parte dos visitantes autorizados que, muito embora tivessem inicialmente a intenção de pernoitar na cidade, acabavam dormindo no navio para não enfrentar os mosquitos, ratos e baratas nas casas de pouso locais.

 

Os albergues do Rio de Janeiro eram então identificados por “um pedaço de pano suspenso em um bastão colocado à frente das casas, como na Europa as tabuletas dos cabarés” (LANGSTEDT, F.L. Reisen nach  SudAmerika - Asien und Afrika).

 

Este cenário começou a transformar-se após a chegada da família real. O pintor Jean Baptiste Debret, que veio para o Rio em 1816 integrando uma Missão Artística a convite do Príncipe Regente, escreveu sobre as mudanças que presenciou em pouco tempo no Largo do Paço, local que então se tornava o primeiro pólo de hotelaria da cidade. O comentário de Debret é tão rico em detalhes visuais que chega a lembrar o estilo de suas gravuras:

 

“[...] já em 1818, com a afluência dos estrangeiros, vários proprietários transformaram os portões em lojas, alugando-as a uns franceses donos de café, que logo utilizaram o primeiro andar para bilhares e mais tarde o resto do edifício para casas de cômodos. Elegantes tabuletas bem pintadas e vitrinas com colunas de mármore, vindas de Paris, enfeitam hoje esses estabelecimentos procurados pelos estrangeiros que desejam passar um momento na cidade ou se hospedar de modo a comunicar-se facilmente com seus navios. Vê-se, no mesmo lado, uma galeria (passagem muito freqüentada) que conduz a pequenas ruas muito antigas, onde se encontra o tipo primitivo de albergue português, cujo balcão se orna de uma enorme lanterna de zinco enfeitada com folhagens do mesmo metal e artisticamente pintadas de cor-de-rosa ou verde. A lanterna encima um braço de ferro ao qual se suspende uma tabuleta donde se destaca, em fundo branco, a efígie de um animal cujo nome se inscreve ainda embaixo, nos seguintes termos: ‘isto é um gato, um leão, uma cobra’, inscrição ingênua que bem demonstra a ingenuidade do quadro. Essas hospedarias destinadas aos habitantes do interior e situadas perto dos lugares de desembarque comportam armazéns para depósitos provisórios das mercadorias e assemelham-se bastante às da Itália. Vê-se na cidade o mesmo gênero de tabuleta, sem a lanterna, à porta das casas de pasto” (DEBRET, J.B. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil).

 

Além dos milhares de imigrantes que haviam chegado com a família real, a fixação da corte portuguesa no Rio de Janeiro trouxe um súbito incremento nas relações comerciais locais. Capitais ingleses e portugueses foram investidos no Brasil, a baía de Guanabara passou a ficar coalhada de navios, o mercado ficou abarrotado de produtos importados, as edificações se multiplicaram. A colônia transformava-se rapidamente em nação soberana.

 

Cada vez maior era o número de estrangeiros que aqui desembarcavam, em missões diplomáticas, expedições científicas ou viagens de negócios.

 

Só então se passou a falar em hotéis, palavra que chegou às ruas na voz dos estrangeiros que os procuravam, ainda sem sucesso. Sendo um galicismo (do francês hôtel), o vocábulo ainda não se fazia presente na edição de 1813 do Dicionário da Língua Portuguesa, de Antônio de Morais e Silva, o primeiro dicionarista brasileiro. Mas logo as casas de hospedagem dos mais variados níveis, das estalagens às pensões, passavam a usar a nova denominação, que lhes conferia mais prestígio. Em 1817, pela primeira vez em anúncio na imprensa, a Hospedaria do Reino do Brasil passou a utilizar o termo “hotel” ao designar-se Hôtel Royaume du Brésil. Porém, em 1887, o Handbook of Rio de Janeiro registrava que “a maioria dos hotéis da cidade não passava de restaurantes”. Um bom exemplo foi o Hotel Pharoux, criado em 1817 como um restaurante, dois anos mais tarde, já oferecia ao cliente não apenas boa comida, mas também quarto mobiliado. Em 1838, já era o estabelecimento de maior prestígio no Rio Imperial, ponto de reunião de estrangeiros.

 

Enquanto o Rio de Janeiro viveu um súbito aumento do fluxo de estrangeiros a partir de 1808, outros mercados turísticos brasileiros viriam a crescer apenas algumas décadas depois.

 

Foi o caso de São Paulo que viu crescer sua demanda de hospedagem à medida que o século 19 transcorria, em direção a um crescimento ainda maior na primeira metade do século 20. Nesse processo teve papel de destaque a fundação da Academia de Direito, em 1827, que atraiu jovens de todo o País e, em pouco tempo, se tornou um importante núcleo de atividades intelectuais e políticas na cidade, dinamizando a vida paulistana e modernizando os seus costumes tradicionais. São Paulo, então capital da província, tornou-se importante núcleo de atividades intelectuais e políticas. Profundas transformações econômicas e sociais viriam em seguida, a partir da expansão da lavoura cafeeira em várias regiões paulistas e da entrada em operação da estrada de ferro Santos-Jundiaí, em 1867, construída para levar o café ao porto de Santos.

 

 

 

Fonte: Confederação Nacional do Comércio

Conselho de Turismo da Confederação Nacional do Comércio
comemoração dos 50 anos de atividades
2005

 

 
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Tropeiro Paulista, 1827: óleo de Charles Landseer

Terreiro de Jesus, em Salvador - Bahia

Convento da Ajuda, Rio de Janeiro

Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro

Largo do Paço

 

Cais e Hotel Pharoux - Praia Dom Manuel

século 19

 

Em meados dos anos 1810, desembarcava no Rio de Janeiro aquele que se tornaria um dos personagens mais conhecidos do século 19, e uma das forças originais na transformação dos costumes locais pela introdução de uma cultura mais metropolitana.

 

Louis Pharoux, nascido em Marselha, lutou ao lado de Napoleão e decidiu exilar-se e reconstruir sua vida nos trópicos por razões políticas, segundo ele próprio. Após conhecer melhor nossa cidade, o que constatou só fez reforçar sua intenção original de construir um novo hotel, oferecendo serviços em nível compatível com os padrões europeus. Na verdade, a capital do reino era muito mal servida neste aspecto. Fora algumas exceções, as hospedagens eram pouco mais que pousadas pulguentas, e Pharoux transformaria radicalmente essa situação.

 

Em 1816 surgia seu hotel, que se tornaria uma das mais conhecidas instituições do século 19 carioca. Localizava-se na rua Fresca (depois rua Clapp), esquina do Largo do Paço (atual Praça XV), com os fundos dando diretamente para o mar, onde havia um cais de desembarque, que acabou sendo obviamente consagrado como Cais Pharoux. Além de boas acomodações, o público foi imediatamente conquistado pela boca, pois a cozinha era excelente, além de serem oferecidos vinhos franceses de qualidade, tornando o Pharoux um verdadeiro oásis de civilização e bom gosto em uma terra embrutecida e isolada do mundo por séculos de administração despótica.

 

Hoje em dia, apesar do mar ter recuado dezenas de metros por sucessivos aterros, e de obras como a Perimetral terem destruído e desfigurado a maior parte da região, o cais em frente ainda é chamado de Pharoux, homenageando o antigo hoteleiro que conquistou seu nome na história pela simpatia e bons serviços, há quase duzentos anos.


Fonte: Rio Antigo - Paulo Pancini

 

Cais Pharoux atrás do hotel

Academia de Direito de São Paulo (à esquerda),

ao lado, Igreja de São Francisco 1862

Estação Ferroviária de Santos (ferrovia Santos-Jundiaí) no início do século 20

Hoje

 

 

 

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Atualizado em: 02 janeiro, 2018.