Viajar e comer - prazeres indissolúveis

 

 

BREVE HISTÓRIA DA HOTELARIA E DO TURISMO

 

 

TURISMO E DESENVOLVIMENTO NO BRASIL DOS SÉCULOS 19 E 20

 

Na rota da evolução empreendida pelo Turismo nos séculos anteriores, intensificaram-se no século 19 as viagens em busca de cultura e recreação. Nesse período houve um contínuo processo de massificação do turismo. A evolução dos meios de transporte tornou as viagens mais acessíveis para outros segmentos da população que não a nobreza.

 

“Os trens eram sinônimo de rapidez e elemento facilitador da atividade turística. Os navios exerciam verdadeira atração sobre a população. Surge a classe média, com salários melhores e maior possibilidade de gastos com entretenimento [...]” (BADARÓ,  2005).

 

No Brasil, a malha ferroviária começou, em meados do século 19, a encurtar distâncias. A “Baroneza”, primeira locomotiva a trafegar no Brasil, construída na Inglaterra, inaugurou a Estrada de Ferro Mauá em 1854. O imperador D. Pedro II, entusiasta da tecnologia, mandou fabricar na Bélgica, em 1886, o Carro Imperial , com luxuosos vagões que garantiam conforto e segurança às suas viagens pelo País.

 

Em meados do século, havia no Rio de Janeiro duas centenas de estabelecimentos de hospedagem (sendo apenas a terça parte pertencente a brasileiros), dos quais cerca de cinqüenta eram considerados hotéis. Entretanto, vários depoimentos de visitantes estrangeiros continuavam se ressentindo da falta de hotéis de qualidade. Principalmente por serem ainda muito gritantes as diferenças de padrão sócio-econômico entre o Brasil e os países desenvolvidos, em todos os aspectos da qualidade de vida das grandes metrópoles e não apenas no campo da hotelaria.

 

Em 1870, o inglês William Hadfield anotou, para o livro que iria publicar sete anos depois, o que considerava extremamente necessário para a capital brasileira de então:

 

“(...) um hotel realmente bom, algo semelhante àqueles dos Estados Unidos (...). Existem muitos hotéis espalhados pela cidade, alguns mais ou menos pretensiosos, mas nenhum apresenta grau de conforto tão essencial para uma grande cidade como o Rio de Janeiro” (HADFIELD, 1877).

 

Em 1886, outro livro publicado na Inglaterra (Exploring and traveling three thousands miles trough Brazil from Rio de Janeiro to Maranhão) registra comentários de um viajante, desta vez James Wells, que tinha passado pelo Rio cinco anos antes:

 

“Existiam então (e agora muito mais) 12 linhas de paquetes, 11 de cabotagem e 4 ferrovias convergindo para o Rio, todas trazendo 317.760 passageiros de primeira classe para a cidade, por ano, ou em média, 870 por dia. Mesmo com todo este movimento e o relativamente grande número de hotéis, não existe um que preencha os requisitos usuais da primeira classe” (WELLS, 1887).

 

Os hotéis de melhor categoria começaram a surgir em antigas mansões, como o Hotel Ravot (antiga residência do Visconde de Cachoeira, na Rua do Ouvidor), ou fora do centro do Rio, alguns deles em bairros afastados. Esta opção oferecia maior conforto, requinte e paisagem exuberante, sem os inconvenientes da confusão das ruas e da falta de saneamento da cidade.

 

De modo relativamente semelhante ao que ocorre hoje nos resorts e hotéis-fazendas, os visitantes se refugiavam em locais bucólicos, como a Chácara das Mangueiras, até então propriedade do Conde d’Eu, transformada em Grande Hotel (Versailles); ou no Hotel White, antigo palacete de verão do Conde de Itamarati, no Alto da Boa Vista; no Hotel d’Angleterre, no antigo Colégio de Instrução e Educação de Meninas, de Mrs. Hitchings, na praia de Botafogo; ou no Grand Hotel Internacional, na rua do Aqueduto, atual Almirante Alexandrino, em Santa Tereza.

 

A evolução dos meios de transporte viabilizou o investimento hoteleiro em locais distantes do centro do Rio de Janeiro. Até os hóspedes dos hotéis do Alto da Boa Vista podiam contar com uma linha de bondes que ligava o centro da cidade ao sopé da Serra da Tijuca, onde serviços especiais de diligências completavam o percurso. Em 1879, a empresa imobiliária responsável pelo Hotel do Leme anunciava a criação de uma linha pioneira de bondes circulando em Copacabana. Para o deslocamento até o centro da cidade, foram criadas linhas de diligências que venciam as ladeiras íngremes entre Botafogo e Copacabana.

 

Os hotéis foram responsáveis pelo desenvolvimento dos bairros de Copacabana e Ipanema, até então quase desérticos. Além dos bondes, outros serviços de transporte coletivo de tração animal - ônibus, gôndolas e tílburis - facilitavam a opção por hotéis no Catete (Carson’s Hotel), em Laranjeiras (Grande Hotel Metrópole) e na Tijuca (Hotel Tijuca, instalado na chácara do Visconde de Andaraí).

 

* * *

 

Outras novidades competitivas eram aos poucos assimiladas no atendimento ao turista no Brasil. Até meados do século 19, o simples ato de banhar-se representou um desafio difícil para os hotéis que precisavam dar um salto de qualidade. Muitos hotéis nem sequer possuíam quartos de banho. Os hóspedes precisavam recorrer a casas de banho públicas, que também não eram numerosas.

 

No Rio, o Hotel Pharoux alardeou no jornal a inauguração de sua própria casa de banhos, aberta ao público, utilizando água encanada do chafariz do então Largo do Paço. No clima da cidade, os banhos tornaram-se decisivos para a preferência dos hóspedes. O Hotel  Ravot surgiu oferecendo uma série de quartos de banho anexos. Outros reagiram depois, oferecendo banhos quentes. Alguns lançaram duchas. E outros, banheiras de mármore. Os hotéis próximos à praia passaram a apregoar também as comodidades para banhos de mar, com salva-vidas. Os da Serra da Tijuca ofereciam banhos de cachoeira. Outros construíram piscinas. E assim por diante.

 

Em São Paulo, o Grande Hotel, inaugurado em 1878, foi considerado o melhor do Brasil, na ocasião, oferecendo uma série comodidades para os hóspedes, como candelabros a gás, escada de mármore branco, mobiliário requintado, sala de banho, correio e telégrafos e outros serviços.

 

Uma grande novidade que fez a diferença nos melhores hotéis por volta de 1880 foi o telefone. Dom Pedro II havia se surpreendido com essa maravilhosa invenção na Exposição Internacional de Filadélfia, em 1877, e pouco tempo depois os primeiros telefones estavam sendo fabricados no Brasil, para serem instalados no palácio do Imperador. Sugestivamente, uma casa comercial chamada "Ao Rei dos Mágicos" instalou a primeira rede telefônica do país, interligando-se a várias repartições públicas na cidade. Somente com a criação da CTB - Companhia Telefônica Brasileira, em 1881, o serviço ganhou corpo. Mas o Brasil estava adiantado neste setor, em relação ao restante do mundo. Desde 1879 havia hotéis com telefone à disposição do público, inicialmente apenas para solicitar transporte.

 

Em 1882, finalmente, a central telefônica da CTB entrou em funcionamento, atendendo a dez hotéis, alguns deles já com telefone particular para os hóspedes, nos quartos.

 

Outra inovação bastante alardeada foi a eletricidade. Os avanços nessa área vieram por etapas. Primeiramente, o conforto de uma campainha elétrica em todos os quartos, para ohóspede solicitar serviços sem precisar ir até a recepção. Depois, a iluminação de algunssetores, especialmente os de uso comum. Depois, os quartos. E, nos prédios altos, os elevadores movidos a energia elétrica causavam admiração.

 

Além das novidades tecnológicas, a inserção dos hotéis na vida social não somente conferiu notoriedade aos que souberam seguir esse caminho, como colaborou para a transformação de costumes arraigados da antiga sociedade colonial. No Rio de Janeiro, a Corte portuguesa trouxe esse impulso, promovendo festas, saraus artísticos e trazendo artistas de companhias estrangeiras para os palcos cariocas. A partir daí, os hotéis também se incorporaram aos divertimentos da cidade. Começaram discretamente, exibindo bandas de música, e em pouco tempo já promoviam os primeiros bailes carnavalescos em salões, poupando os foliões de grosserias inconvenientes dos entrudos, nas ruas. No Rio, a folia teve início no Hotel da Itália, em 1835, repetiu-se várias vezes no mesmo ano, nesse e em outros hotéis, e consagrou-se para sempre (BELCHIOR e POYARES, 1987).

 

* * *

 

Também em outras regiões do país, a estrutura hoteleira começou a tornar-se sólida na segunda metade do século 19. No Rio Grande do Sul, a cidade de Porto Alegre ganhou em 1870 o sofisticado Hotel del Siglo, localizado na Praça da Alfândega (Almanaque Gaúcho, 2005). Em Minas Gerais, o Hotel Caxambu, criado em 1881, e o Grand Hotel Pocinhos, instalado na Cidade de Caldas, em 1886, são ainda hoje os mais antigos hotéis brasileiros em funcionamento.

 

Nessa época, nada foi mais impactante para o turismo no Brasil do que a imigração, não apenas pela exigência de acomodações para os imigrantes, mas também pela experiência que traziam nos serviços de hotelaria europeu. No Rio Grande do Sul, por exemplo, de 1859 a 1875, o Governo da Província registrou o número de 12.563 estrangeiros, das seguintes nacionalidades: alemães (8.412), austríacos (1.452), italianos (729), franceses (648), suíços (263) e outros (105).

 

Mas, em matéria de imigração, nada se compara aos números de São Paulo. Para fazer frente a esse fenômeno, foi iniciada em 1886 a construção da Hospedaria do Imigrante, em caráter de urgência, num edifício de uso temporário no bairro do Bom Retiro, onde ficavam os demais hotéis construídos neste período. Porém, as crescentes epidemias de gripe evaríola que atingiam a região determinaram a construção de uma sede definitiva, inaugurada um ano depois, no bairro do Brás, com capacidade para abrigar 4 mil pessoas e com grandes espaços que levavam em conta a necessidade de um grande controle epidêmico. Procedentes de outros países e também de outras províncias, os imigrantes formavam amão-de-obra necessária para a indústria e a agricultura.

 

Em apenas cinco anos, de 1895 a 1900, a população da paulicéia saltou de 130 mil habitantes para 240 mil. Enquanto isso, a atividade hoteleira crescia incessantemente na cidade. Além do requintado Grande Hotel, na rua São Bento, ergueu-se junto às estações Sorocabana e Luz um conjunto de hotéis com a arquitetura típica da passagem do século, testemunhando a intensa atividade comercial que florescia na época.

 

No entanto, o fluxo de imigrantes tinha apenas começado. Em 1905, desembarcaram em São Paulo os primeiros sírios e libaneses. Mais de 50 mil sírios chegariam nas décadas seguintes. Em 1908, chegaram as primeiras 165 famílias japonesas. Anos depois, principalmente a partir da Segunda Guerra, chegariam mais de 500 mil. Em 1914, o estado já abrigava 1,8 milhão de imigrantes, dos quais 845 mil eram italianos. O estímulo à industrialização no Brasil, provocado pela Primeira Guerra Mundial, gerou um grande surto de desenvolvimento na região.

 

Mão-de-obra qualificada não faltava. E os recursos obtidos com a exportação de café ergueram as chaminés das primeiras indústrias de São Paulo. A atividade fabril desenhou um novo perfil urbano e econômico na cidade, que exigiu a ampliação de toda a infra-estrutura da cidade, inclusive no setor da hotelaria. Este cenário provocou também o surgimento de hotéis luxuosos, destinados a abrigar os grandes barões do café e os emergentes industriais.

 

* * *

 

A evolução nos serviços vinculados à hospedagem ajudou a fomentar, na segunda metade do século 19, o surgimento de hotéis de categoria, funcionando em edifícios especialmente construídos para essa finalidade. Era o caso de alguns estabelecimentos inaugurados no Rio, nessa ocasião, como o Freitas Hotel, o Hotel Guanabara e o Hotel dos Estrangeiros. Este último, com 120 quartos de primeira ordem, possuía ainda grande salão de jantar, sala de leitura e de bilhares, salão de recepções e salão de banquetes para 300 talheres.

 

Essa geração de hotéis mudou a imagem que vigorava anteriormente entre os visitantes estrangeiros, a respeito dos hotéis do Rio de Janeiro e do Brasil. Bom exemplo disso, em contraste com as citações que registramos anteriormente, é o testemunho de James Fletcher sobre sua temporada no Hotel dos Estrangeiros:

 

“As janelas do quarto estão totalmente abertas e, fechando os olhos, sente-se a brisa da terra, que docemente murmura, trazendo em suas asas não somente o suave e fresco perfume da terra, como, roubando em sua passagem pelos jardins próximos a fragrância dos jasmins, o delicado aroma da florapondia e o perfume das flores recém abertas das laranjeiras, enriquece o ambiente da noite com os mais ricos aromas. O gemido distante das vagas, que vêm quebrar na Praia Flamengo, é uma suave melodia, que acalenta o sono para se sonhar com cenas não mais deleitosas que aquelas que nos rodeiam nas quais existem” (KIDDER, D. e FLETCHER, J., 1941).

 

Em 1904 é aprovada a primeira lei de incentivos fiscais para a construção de hotéis no Rio de Janeiro, então Distrito Federal. O Turismo começou a se firmar no país como atividade de grande importância sócio-econômica. A chegada do primeiro grupo organizado de turistas ao Rio de Janeiro, a bordo do vapor Byron, em julho de 1907, desperta a curiosidade da população e é notícia de destaque nos jornais. Também no ano de 1907, dois importantes avanços legais trouxeram impactos altamente positivos para a atividade turística: o direito a férias remuneradas (já assegurado na Europa décadas antes) e a isenção de impostos aos cinco primeiros grande hotéis da cidade.

 

E em 1908, exatamente um século depois da chegada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro, pode-se dizer que a hotelaria brasileira atingia sua maioridade, com a inauguração do Hotel Avenida.

 

* * *

 

Nos anos de 1920, a próspera capital paulista vivia uma Belle Epoque, com a inauguração de luxuosos hotéis e de imponentes palacetes, em meio a um processo de embelezamento da cidade. Bons exemplos dessa fase são o Hotel Terminus, na Avenida Prestes Maia, com mais de 200 quartos, e o Hotel Esplanada, com 250 quartos. Construído ao lado do Teatro Municipal, o Esplanada tornou-se o ponto de encontro da elite paulistana. Outro marco da época é o Hotel Central, na Avenida São João, o primeiro hotel de quatro pavimentos na cidade.

 

Nessa mesma época, no Rio, o glamour dos hotéis notabilizou-se com o sucesso internacional dos bailes carnavalescos. Nesses eventos, dois hotéis inaugurados na década de1920, o Glória (1922) e o Copacabana Palace (1923) ajudaram a consolidar o Rio de Janeiro como destino turístico. Ambos influenciados pelo Hotel Ritz, de Paris, considerado um marco na história da hotelaria mundial, apresentavam inovações hoje triviais, como banheiro privativo em cada quarto e empregados uniformizados. A grandiosidade das instalações e o requinte dos serviços desses dois hotéis representaram, para o Brasil, um grande avanço nas atividades hoteleiras e turísticas.

 

Grandes alterações urbanas promovidas no Rio e em São Paulo, especialmente nas primeiras décadas do século 20, afetaram a localização e o conceito arquitetônico dos novos hotéis. O alargamento de avenidas, a verticalização e o uso intenso de automóveis traçaram perfis diferenciados nas principais cidades do país. Assumindo papel de destaque na paisagem paulistana, surgem os hotéis Excelsior, Terminus e São Paulo.

 

Importa notar que a paisagem dos céus começa a mostrar novidades ao fim da primeira Guerra Mundial (1914-1918): sobravam pilotos experientes e aviões militares, que eram vendidas a bom preço e adaptados para o transporte de passageiros e de malotes postais.

 

Assim surgiram, principalmente na Europa, inúmeras empresas de transporte aéreo. No Brasil, entretanto, a aviação comercial só ganharia fôlego ao final dos anos 1920.

 

Inaugurada em 1927, a Varig - Viação Aérea Riograndense transportava seus passageiros nos hidroaviões Dornier Wal de nove lugares e um Dornier Merkur, de seis lugares. No mesmo ano, começou a operar no Brasil a Syndicato Condor, braço da alemã Deustche Luft Hansa. Dois anos mais tarde, era autorizada a voar no Brasil a Nyrba do Brasil, subsidiária da New York, Rio and Buenos Aires Line Inc., mais tarde incorporada pela Pan American. Recebendo em 1930 o nome de Panair, a companhia operou as primeiras linhas ligando Belém e Rio de Janeiro. Outras companhias internacionais, como a Air France, se instalariam no Brasil nos Anos 1930.

 

Com o fim da Segunda Guerra o avião passou a ser, em todo o mundo, por excelência, um veículo essencial para o desenvolvimento do Turismo e para o intercâmbio entre os povos.

 

Em 1949, na Europa, foi vendido o primeiro pacote de turismo que utilizava o avião como transporte. Em 1955, a Varig inaugurou sua linha Rio de Janeiro - Nova Iorque, com os confortáveis Super Constellation. O transporte aéreo já se consolidava como um fator de grande impulso para o Turismo doméstico e internacional.

 

Vale notar que, já em 1945, a intensificação das atividades comerciais e de serviços no Brasil, entre elas, aquelas relativas à cadeia produtiva do turismo, motivou empresários do setor a se unirem para constituir a Confederação Nacional do Comércio. No ano seguinte, foram criados o Serviço Social do Comércio - Sesc, que marcaria sua trajetória como um dos principais pólos promotores do Turismo Social no País, e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial - Senac, entidade educacional que viria a se tornar referência do Brasil no campo da formação de profissionais para o Turismo e a Hotelaria.

O crescimento do fluxo de turistas havia propiciado a instalação de novos hotéis em várias capitais brasileiras, como Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife e Goiânia. Nas regiões de potencial turístico, foi a época dos hotéis-cassino, como o Parque Balneário e o Atlântico, em Santos, o Grande Hotel de Poços de Caldas, o Águas de São Pedro (hoje hotel-escola do Senac), o Grande Hotel de Araxá, o La Plage do Guarujá, o Quisisana em Poços de Caldas, e o Palácio Quitandinha de Petrópolis. No entanto, a proibição dos jogos de azar, em 1946, pelo decreto federal nº 9.215, assinado pelo General Eurico Gaspar Dutra, provocou o fechamento não apenas dos cassinos, mas de vários desses grandes hotéis, que tiveram que reestruturar suas atividades. A ocupação hoteleira caiu bruscamente.

 

O turismo e a hotelaria sofreram um período de estagnação. A febre imobiliária nas grandes cidades direcionou a maior parte dos investimentos urbanos para a construção de prédios de escritórios e residenciais.

 

Após quase cinco décadas de funcionamento, o Hotel Avenida, símbolo da hotelaria carioca, é demolido, em 1957, para dar lugar ao Edifício Avenida Central. E o poeta Carlos Drummond de Andrade assim traduziu essa fase, simbolizada pela demolição do Hotel Avenida:

 

Vai, Hotel Avenida,

vai convocar teus hóspedes no plano da outra vida (...)

estou comprometido para sempre

Eu que moro e desmoro há tantos anos
o Grande Hotel do Mundo sem gerência
em que nada existindo de concreto
- avenida, avenida - tenazmente
de mim mesmo sou hóspede secreto.
(ANDRADE, Carlos D. Obra Completa, 1957)

 

Toda a cadeia produtiva do Turismo se ressentia com a crise advinda da proibição dos cassinos no País e dos prejuízos da hotelaria nacional. Da própria crise, sobreveio a união: em 1953, quinze representantes de agências de viagens se reuniram no Rio de Janeiro para criar a Associação Brasileira das Agências de Viagens - ABAV, a exemplo do que já haviam feito os hoteleiros do País ao fundarem, em 1936, a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis - ABIH.

 

Atenta à necessidade de dispor de um fórum próprio para discutir soluções focadas no turismo, a Confederação Nacional do Comércio, criou, em 1955, o Conselho de Turismo, um órgão de assessoramento que reúne notáveis da hotelaria e da atividade turística nacional.

 

Neste mesmo ano, empresários do ramo de hospedagem e alimentação uniram-se para fundar a Federação Nacional dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares.

 

Essa mobilização setorial acabou por despertar as autoridades públicas do País que, em 1958, aprovaram a criação de um órgão nacional responsável pela coordenação das atividades destinadas ao desenvolvimento do turismo interno e externo: a Combratur, Comissão Brasileira de Turismo (Decreto Federal nº 44.863).

 

No entanto, a crise ainda se arrastaria por mais alguns anos. Em novembro de 1961, os problemas do setor eram apontados pelo presidente do Conselho de Turismo da CNC, Corintho de Arruda Falcão, em reunião da entidade:

 

“Falta-nos a civilização de como receber o turista nos portos e aeroportos, nos quais cinco ministérios diferentes entravam a entrada de nossos visitantes, com emprego de métodos e processos obsoletos, já abandonados por todos os países do mundo. [...] falta-nos civilização, quando se nota a inexistência de um grande parque hoteleiro, condição sine qua non, para que recebamos hóspedes. Que melancolia, sabermos que todos os apartamentos de classe turística, no Brasil, não atingem o número de 10 mil, enquanto que a França possui 400 mil e a Espanha 280 mil” (FALCÃO, 1961).

 

Apesar do contraste entre o mercado interno e o cenário internacional, os anos 1960 trouxeram novas perspectivas para o Turismo brasileiro. Novos empreendimentos hoteleiros entraram em cena, estimulados pelo aquecimento da economia no período e pelos incentivos para investimentos oferecidos pela Embratur, empresa estatal criada pelo Decreto-Lei 55, de 1966, com a missão de formular, coordenar e fazer executar a Política Nacional do Turismo.

 

No início dos anos 1970, a hotelaria e o empresariado do setor deram mostras de novo vigor. No Rio, com um arrojado projeto arquitetônico assinado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, além de um jardim desenhado por Burle Marx, foi inaugurado em 1972, em São Conrado, o Hotel Nacional, que chegou a ostentar durante alguns anos o título de o maior e mais moderno da América do Sul.

 

Nessa época, algumas das maiores redes internacionais de hotelaria começavam a se instalar no Brasil, com novos investimentos imobiliários no setor, contratos de gerenciamento ou sistemas de franquias. Essa nova fase da história da hotelaria brasileira teve início com a Hilton Internacional Corporation, que em 1971, na capital paulista, assumiu a administração de um hotel com 400 apartamentos na avenida Ipiranga: o Hilton São Paulo, construído pelo consórcio Scuracchio.28 Nos anos seguintes, outras grandes marcas da hotelaria internacional chegaram ao País, em associação com grupos nacionais. Em 1974, começaram a operar o Rio Sheraton e o International Rio, administrado pela Intercontinental Hotel Corporation.

 

Um ano depois, foi a vez do Meridien, em associação com o grupo Sisal. Em 1977, chegou ao País a cadeia Novotel, em parceria com o grupo Moreira Salles. E a rede Caesar Park, que, em 1976, tinha inaugurado seu primeiro hotel brasileiro na capital paulista, estende-se ao Rio de Janeiro em 1979. O Clube Mediterranée se instala na Bahia em 1976.

 

A diversificação de serviços com perfil de luxo e o aumento da profissionalização no setor foram fatores decisivos, a partir desse período, não apenas para a promoção da hotelaria nacional, mas especialmente para o incremento da imagem do Brasil como destino importante do turismo internacional.

 

Passados cinco séculos desde o desembarque dos primeiros estrangeiros nas terras brasileiras, o Turismo representa hoje o terceiro produto de exportação na balança comercial brasileira, abaixo apenas da soja em grão e do minério de ferro, com uma arrecadação em torno de US$ 4 bilhões somente com a entrada de turistas estrangeiros. No setor doméstico, os desembarques totalizaram 24,3 milhões de passageiros nos primeiros sete meses do ano, indicando um aumento de quase 20% com relação ao ano anterior (Ministério do Turismo, 2005).

 

Hoje, a cadeia produtiva do turismo continua a fazer história e a promover o desenvolvimento do Brasil. E, atenta a novas demandas e exigências da atividade turística brasileira, a Confederação Nacional do Comércio, mais uma vez, inova ao criar, em 2004, a Câmara Empresarial do Turismo, que integra os diversos segmentos empresariais da cadeia produtiva do setor, na busca da modernização e competitividade de produtos e serviços turísticos nacionais.

 

Essa cadeia produtiva do turismo composta por hotéis, restaurantes, bares, empresas de transportes, agências e operadores de viagem, entre outros, gera empregos, renda e riquezas em todo o País, construindo dia após dia a história do turismo no Brasil.

 

 

Fonte: Confederação Nacional do Comércio

Conselho de Turismo da Confederação Nacional do Comércio
comemoração dos 50 anos de atividades
2005
 

 

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A Baroneza, foi a primeira locomotiva a trafegar em território brasileiro, servindo na Estrada de Ferro Petrópolis, depois Estrada de Ferro Mauá, construída por iniciativa de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, inaugurada em 30 de abril de 1854. Nesta vista, a Baroneza está sendo exibida junto a um grupo de ferroviários na década de 1920.

Vagão Imperial

Estação D.Pedro II (Estação Central do Brasil ) Rio de Janeiro, 1895, Fotografia de Marc Ferrez

O Grand Hotel Internacional do Rio de Janeiro ficava na rua do Aqueduto, 76 - 108 da atual Rua Almirante Alexandrino. Pertencia a Ferdinand Menteges, que propagava o maravilhoso clima de Santa Teresa em seus anúncios. A primeira referencia a ele, feita no Almanaque Laemert é de 1892. Ele funcionou até a meados dos anos 30.

 

O prédio do hotel foi construído para abrigar um sanatório para doenças do pulmão. Anos mais tarde, tornou-se um dos principais hotéis da cidade.

 

O hotel era mais cosmopolita, alem de pianos e bilhares para o entreter os hospedes, ele oferecia a moda inglesa das quadras de tênis e do campo de crickett.

 

Aproximadamente, três vezes por ano, entre 1892 e 1893 na segunda sexta-feira do mês, o hotel recebia um grupo de intelectuais apreciadores da boa gastronomia, para jantar. Entre eles: Lucio Mendonça, Raul Pompéia, Artur de Azevedo, Rodrigo Otavio, Valentim Magalhães, Urbano Duarte, Pedro Rabello, Henrique  Magalhães, Capistrano de Abreu, Araripe Junior.

 

Fontes: Nada de Mais

Saudade do Rio

 


Grande Hotel, Rua São Bento, 1911.

Fonte: A cidade da Light, 1899-1930, São Paulo,

Eletropaulo, vol. 1, 1990, p. 121

 

 

 

Hotel Avenida (1908-1957)

 

Hotel Avenida era propriedade da Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico-CFCJB. Construído por Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá, ele tinha 3.200 metros de área total, com 60 metros de frente, 22,85 metros de altura geral sobre o solo e 34,30 metros de altura máxima. O terreno foi adquirido pela CFCJB à Fazenda Nacional, que passou a ser sua proprietária em conseqüência dos planos das obras de abertura da Avenida Central, conforme escritura lavrada em 1º de julho de 1906.

 

 O Hotel Avenida foi inaugurado em 1910. Ele dispunha de 220 quartos, iluminados a luz elétrica, e também oferecia aos hóspedes o conforto do elevador. Na época de sua inauguração, a diária mínima era de 9 mil réis.

 

 O Hotel Avenida foi um dos mais populares edifícios d a Avenida Rio Branco. Ele ocupava uma quadra delimitada pela Avenida Rio Branco, Largo da Carioca, Rua São José (desaparecida neste trecho) e a antiga Rua de Santo Antônio, atual Bittencourt da Silva. Em seu lugar ergue-se hoje o Edifício Avenida Central.

 

 No térreo funcionava uma estação circular dos bondes da Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico, que trafegavam pela Zona Sul da cidade. Era a famosa Galeria Cruzeiro, assim chamada devido à existência de duas passagens em cruz. Essa estação oferecia embarque coberto e confortável e acesso a diversos bares e restaurantes que também funcionavam no térreo do Hotel Avenida. Um dos mais freqüentados era o da Brahma, denominado formalmente de "Ao Franzisbnaner", nome da cerveja mais popular da época. Ele ficava ao lado da Rua São José, onde também funcionou a Leiteria Silvestre, que, após a construção do Edifício Avenida Central, permaneceu no mesmo local. O Nacional foi outro restaurante famoso da Galeria Cruzeiro, cuja frente dava para o Largo da Carioca.

 

 A Galeria Cruzeiro também foi um dos principais cenários do carnaval carioca, concentrando os foliões que chegavam nos bondes lotados e ruidosos. A felicidade saltava dos bancos de madeira dos bondes para as mesas de mármore dos bares.
 Durante quase meio século, o Hotel Avenida hospedou o bate-papo, o bom-humor e a alegria dos cariocas. Foi ali, na Galeria Cruzeiro, entre bondes e restaurantes, que a Light viveu mais um capítulo de sua história de identificação com o Rio de Janeiro. O Hotel Avenida era tão importante que acabou se transformando em marco histórico do Centro e cartão-postal do Rio Antigo.

 

 O Hotel Avenida foi demolido em 1957 para dar lugar ao Edifício Avenida Central, projeto do escritório de arquitetura Henrique Mindlin, inaugurado em 22 de maio de 1961 e que acabou por se constituir também em um dos referenciais da área central da cidade e do international style no Brasil. A destruição do hotel inspirou um poema de Carlos Drummond de Andrade, intitulado "A um hotel em demolição", do livro A Vida Passado a Limpo, de onde saíram os versos do poeta. O Hotel Avenida e a Galeria Cruzeiro desapareceram mas continuam ainda vivos na memória histórica e sentimental do Rio de Janeiro:



 


Hotel Terminus - São Paulo. Fonte: Almanaque Paulistano

 

HOTEL ESPLANADA à direita. À esquerda o Teatro Municipal de SP.

 

Hotel Central, na Av. São João, em São Paulo, hoje desativado.

 

Hotel Glória - Rio  de Janeiro

 

Hotel Copacabana Palace - Rio  de Janeiro

 


Hotel Excelsior, Avenida Ipiranga. Fonte: Acervo Digital Rino Levi – FAU PUC-Campinas

 

 

Parque Balneário de Santos - SP

 

Palácio Quitandinha de Petrópolis

 

 

 

 

 

 

 

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Atualizado em: 01 abril, 2013.