Viajar e comer - prazeres indissolúveis

 

 

 

 

 

 

 

Os hotéis da metrópole

Evolução e História dos hotéis na cidade de São Paulo

 

 

Ana Carla de Castro Alves Monteiro

 


Diferentes dos exuberantes edifícios comerciais e, sobretudo dos edifícios residenciais, os hotéis não foram um grande número de construções na cidade de São Paulo. No entanto, seus poucos exemplares podem ser considerados como importantes registros na compreensão da evolução histórica, econômica e social da cidade.

 

Ligados ao processo de crescimento sócio-econômico e a expansão urbana da Cidade, os hotéis se instalaram junto aos principais espaços e suas principais transformações ocorreram na cidade no período do início do século 20 até meados do mesmo século.

 

Ao longo deste período a cidade de São Paulo teve vários eixos de desenvolvimento hoteleiro, enfaticamente na região central. As zonas que entravam em processo de decadência eram rapidamente substituídas por novos pontos de interesse, gerando um constante deslocamento desta atividade para novas fronteiras. Assim, consideramos que as regiões compreendidas entre o Triângulo Central e Centro Novo da Cidade serão um repertório generoso de análise e reflexão neste artigo.

 

Aliadas às mudanças de fronteiras urbanas aqui ressaltadas, procuraremos evidenciar também a questão das alterações tipológicas, enfatizando as novas tipologias hoteleiras que surgem a cada novo período de crescimento da Cidade.

 

No caso de São Paulo, buscaremos apresentar, neste estudo, a evolução de Vila à Metrópole e evidenciar as transformações físicas e sociais de uma população no início do século 20 através dos diálogos entre o urbanismo e a arquitetura hoteleira.

 

 

A virada do século

 

Ao estudarmos a cidade de São Paulo em sua evolução urbana e os diálogos entre a arquitetura hoteleira do início do século precisamos conhecer os agentes econômicos e sociais que contribuíram para o crescimento da cidade e transformação desta de Vila à Metrópole.

 

Um dos grandes marcos para o crescimento e industrialização da cidade, na virada do século 19 para o século 20, está centrado na figura do imigrante. A partir de 1870 o movimento de chegada de imigrantes tornou-se intenso, atingindo o número de 2.740.000 estrangeiros em 1914, em grande parte italianos, espanhóis e alemães (Arquivo da Hospedaria dos Imigrantes).

 

Muitos imigrantes, refugiados da primeira Guerra Mundial foram responsáveis pela urbanização da Cidade e pela entrada de novas vanguardas artísticas e arquitetônicas.

 

Como capital do Estado em pleno surto de desenvolvimento, São Paulo tornou-se pólo de grande número desses imigrantes atraídos pelas inúmeras oportunidades que então se ofereciam. A cidade refletiu de imediato essa situação com a expansão urbana através de diversos bairros, alguns identificados pelas comunidades neles predominantes.

 

Com o advento da República, São Paulo ampliou sua área urbanizada e modernizou sua área central incorporando diversos edifícios públicos monumentais. Teve início um processo de expansão de sua área urbanizada através do retalhamento das chácaras em seu entorno para a implantação descontrolada de loteamentos por toda parte. A nova estrutura política e econômica vinculada ao capital do café acarretaram à cidade avanços tecnológicos e um capital financeiro jamais vistos. Vários bancos surgiram na cidade fazendo com que ela perdesse os ares de provinciana e, com isto, a nova sociedade exigiu novos padrões de vida e de instalações.

 

 

Pouso de tropeiros/hospedarias – tempo de passagem

 

A “primeira fase” de construções destinadas ao uso hoteleiro se deu ao longo da Vila de São Paulo, próximo aos principais acessos de entrada e, posteriormente, próximo aos principais edifícios da cidade. Não eram construções de destaque na malha urbana.

 

A principal característica destas construções era a do uso rápido e temporário. A cidade não tinha atrativos que cativassem os viajantes a permanecer, pois a maioria deles era composta por tropeiros que passavam pela cidade na rota interior-litoral. Os edifícios eram simples, de tijolos com poucos quartos e banheiros coletivos (PORTO, Antônio Rodrigues. História urbanística da cidade de São Paulo (1554- 1988). São Paulo, Carthago / Forte Editoras Associadas, 1992, p. 177).

 

A Hospedaria dos Imigrantes, outro projeto importante para a cidade com o caráter de um edifício de uso temporário, situou-se primeiramente no bairro do Bom Retiro como os demais hotéis construídos neste período, mas as péssimas condições de funcionamento e as crescentes epidemias de gripe e varíola que atingiam a região determinaram a construção de outro edifício, também próximo à ferrovia, no bairro do Brás.

 

Com projeto de Matheus Haussler, o novo edifício teve e o incentivo do Visconde da Paraíba para sua realização e concepção como um maior espaço destinado ao recebimento de imigrantes.

 

Inaugurada em 19 de junho de 1887, a Hospedaria dos Imigrantes teve como finalidade receber os imigrantes procedentes de outros países e também de outros Estados. Eles compunham a mão-de-obra necessária nas indústrias nas cidades.

 

Devido a seu grande porte, a Hospedaria dos Imigrantes pôde ser apontada como o primeiro estabelecimento destinado à grande hospedagem da cidade de São Paulo, pois há registros que lá já se alojaram cerca de 6.000 pessoas. Sua construção em 1887 teve com principal finalidade facilitar o desembarque e o transporte dos imigrantes, sobretudo por estar ao lado da linha férrea São Paulo Railway (1888-1946). A estação situada junto à hospedaria servia apenas para o desembarque dos imigrantes e não tinha uso contínuo com as demais da cidade.

 

A construção da Hospedaria mostrou a preocupação com a acomodação e apoio ao imigrante e seus grandes espaços visavam o alojamento de muitas pessoas e a necessidade de um grande controle epidêmico.

 

 

Os primeiros hotéis – tempo de permanência

 

Diferente da cidade do Rio de Janeiro que teve, no início do século 19, (mais precisamente a partir de 1808, com a chegada da Família Real) um aumento no fluxo de estrangeiros e, conseqüentemente, na construção de alojamentos, a cidade de São Paulo só teve um crescimento nesta demanda a partir de meados do século 20, com a instalação da Academia de Direito do Lago de São Francisco.

 

Para Antônio Rodrigues Porto, “a instalação da Academia de Direito foi o acontecimento mais importante para a vida da cidade de São Paulo em toda primeira metade do século 19. A presença desse estabelecimento de ensino superior deu-lhe mais vigor e entusiasmo. A Academia de Direito arrancou São Paulo do seu sono colonial e criou condições para alterar seus costumes tradicionais” (Idem, ibidem, p.174).

 

No entanto, com o crescimento da cidade no século 19, surgiu uma nova fase de construções hoteleiras e muitos hotéis foram destaque na Cidade de São Paulo. A cidade, ainda em sua formação inicial de urbanização, o “Triângulo Central”, teve seus principais elementos hoteleiros localizados próximos à Faculdade de Direito e às Estações Ferroviárias da Cidade. Um dos mais notáveis deste período foi o Grande Hotel, construído por encomenda do alemão Frederico Glete, na Rua São Bento, esquina do Beco da Lapa (atual Rua Miguel Couto).

 

Inaugurado em 1878 era considerado, conforme descrição de Antônio Rodrigues Porto, “o melhor hotel do Brasil”. Projeto do alemão Von Puttkamer, era um edifício de três andares e que recebeu ao longo de sua história inúmeros hospedes famosos como o principie Henrique da Prússia (1885) e a artista Sarah Bernhardt (1886). Este prédio veio a ser demolido em 1964 e em seu lugar foi construído um edifício comercial.

 

O conjunto hoteleiro da Rua Mauá (antiga Rua da Estação), tem os exemplares típicos construídos na passagem do século, vizinhos das estações Sorocabana e Luz. Estes hotéis são o testemunho de uma atividade que foi bastante comum em sua época quando esta área da cidade mantinha o maior comércio do Estado de São Paulo. Seus hóspedes, segundo dados do DPH, eram “oriundos de cidades do interior do estado que ali chegavam através da Ferrovia para fazer compras ou simplesmente olhar as vitrines, instalando-se nestes hotéis pela comodidade e conforto (www.prodam.sp.gov.br/dph).

 

Os destaques, Hotel do Comércio e Hotel Federal Paulista, construídos em alvenaria de tijolos, são prédios de três pavimentos, com a construção alinhada ao lote que mantêm o uso hoteleiro até nossos dias, porém em precário estado de conservação. Outros dois hotéis situados na Avenida Cásper Líbero merecem ser lembrados neste estudo: o Hotel Queluz e o Karin. A tipologia destes é semelhante aos da Rua Mauá, porém tiveram o térreo muito alterado das suas características originais.

 

 

Os anos 20 e 30

 

As exportações crescentes de café levaram à capitalização de recursos que permitiram a formação das primeiras indústrias de São Paulo, também favorecidas com o excesso de mão-de-obra imigrante disponível. Implantadas ao longo dos terrenos das várzeas dos rios, por onde passavam as ferrovias, as fábricas criaram o novo perfil urbano e econômico da cidade acelerando seu crescimento e ampliando a infra-estrutura de transportes e energia.

 

O processo de industrialização acelerou nos anos 30 com a crise do café, em função da quebra da Bolsa de Nova York em 1929, consolidando sua importância na economia paulista. As ferrovias passaram a articular uma rede de subúrbios operários constituídos no entorno de suas estações dando início a um processo preliminar de metropolização. Em 1930 São Paulo já possuía cerca de 900.000 habitantes, o que intensificou a produção de prédios novos entre 1920 e 1928. Segundo Nadia Somekh, a recessão econômica no início do período atingiu a produção imobiliária até 1933, quando se registrou retomada e a mudança no padrão de crescimento da cidade.

 

Naquele momento os hotéis mudaram de perfil construtivo e arquitetônico. Surgiram os luxuosos hotéis, próximos ao Teatro Municipal, destinados a abrigar os grandes barões do café e os emergentes industriais. O uso dos elevadores fez aumentar a altura das construções e, por sua vez, o Ecletismo foi eleito como fonte de inspiração arquitetônica.

 

A cidade ampliou velozmente sua mancha urbana atingindo os limites dos rios Tietê e Pinheiros estruturada por uma extensa rede de bondes elétricos e melhoramentos urbanos diversos, principalmente em sua área central.

 

Com a expansão da cidade as melhorias urbanas, a melhoria dos serviços de transportes e a especulação imobiliária acarretaram um crescimento vertiginoso da área central. A escala urbana, então restrita ao Centro Histórico foi alterada bruscamente e a cidade preparou-se para as novas adequações urbanas e arquitetônicas. O Centro Histórico tornou-se inviável para conceber os novos projetos e a malha urbana espalhou-se entre a região da Avenida Ipiranga, Avenida São Luís e Avenida Paulista.

 

O crescimento dos espaços públicos como praças, teatros e cinemas e o aumento do uso noturno de diversos estabelecimentos devido à iluminação pública, modificaram os modos e costumes da sociedade paulistana. Aliadas ao crescimento da cidade, as discussões a respeito da necessidade de leis mais eficazes para as novas demandas resultaram em Atos e Decretos que regulavam a ocupação no Centro Novo. Um bom exemplo foi o Ato nº 663, de 1934, que “regulamentou o Código Arthur Saboya. Embora não se referisse especialmente à verticalização, o código procurava incentivá-la através do estabelecimento de alturas máximas consideráveis” (SOMEKH. Nádia. “São Paulo anos 30: verticalização e legislação urbanística”. Espaço & Debates, Revista de Estudos Regionais e Urbanos, nº 40. São Paulo, ano XVII, NERU, 1997).

 

O automóvel adquiriu uma presença marcante no cenário urbano, tornando-se parte da cidade e das atividades cotidianas. Ruas foram alargadas e avenidas criadas para suportar o tráfego viário cada vez mais crescente.

 

 

Os luxuosos hotéis dos anos 20 – tempo da Belle Epoque paulistana

 

“A cidade vivia um processo de completo embelezamento. Praças, lojas, passeios e a construção acelerada de vários palacetes faziam parte do novo cotidiano. Os estilos variavam, mas a representação era uma só. Afinal, estava para ser encenado o teatro desta nova elite paulistana tão carente de símbolos de civilização” (SCHWARCZ, Lilia Katz Moritz. Entre cientistas, confeitarias, bondes e muita garoa: um passeio pelo centro de São Paulo na virada do século XIX. Associação Viva o Centro / Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, 1994. Fonte: www.vivaocentro.org.br).

 

Na década de 20 tivemos a inauguração do Hotel Terminus (localizado na Avenida Prestes Maia, onde está o Edifício da Receita Federal) com mais de 200 quartos e do moderno Hotel Esplanada (atual sede do Grupo Votorantin) com 250 quartos.

 

“O antigo Hotel Esplanada é um remanescente das grandes construções que compunham a áreas envoltória do Teatro Municipal, formando o mais famoso ‘cartão postal’ da cidade” (EMPLASA. p. 184).

 

Este hotel, construído ao lado do Teatro Municipal, foi considerado o ponto de encontro da elite paulistana.

 

Outro importante exemplo da produção arquitetônica da década de 20 é o Hotel Central. Um marco da época, estava instalado num prédio histórico de autoria de Ramos de Azevedo que era considerado um dos mais importantes arquitetos de São Paulo no início do século 20. Localizado na Avenida São João, o edifício projetado e construído em 1915 foi uma das mais expressivas obras da capital à época, simbolizando um período de crescimento da cidade. É o primeiro hotel de quatro pavimentos na capital, segundo fonte do próprio hotel.

 

Outro destaque da arquitetura hoteleira produzida por Ramos de Azevedo é o Center Hotel. “A década de 20 foi um período de grande efervescência intelectual na cidade. Iniciava-se a era da modernidade e os homens públicos procuravam também avançar na maneira de enfrentar a cidade que já despontava como metrópole” (GROSTEIN, Marta Dora. O papel da irregularidade na estruturação do espaço urbano no município de São Paulo. 1990-1987. Dissertação de Mestrado, FAU-USP; 1987, p. 123).

 

Estes exemplos arquitetônicos mostraram que a cidade crescia de maneira acelerada. O fortalecimento da economia industrial no final dos anos 30 favoreceu o crescimento da cidade e a importância desta no cenário nacional. Ficava claro que São Paulo necessitava de profundas transformações e estas não tardariam a despontar no planejamento urbano.

 

 

Os anos 40 e o IV Centenário

 

“A economia brasileira passava por um momento inteiramente particular com o desenvolvimento da industria pesada de automotrizes e de energia (petróleo). Enquanto isso, a agricultura continuava a sofrer de um impacto negativo e se mantinha presa a formas técnicas antiquadas. Socialmente, havia um rejuvenescimento de problemas sociais: enquanto a maior parte da classe conservadora estava fechada a qualquer iniciativa renovadora, parte da classe média lutava por reformas de base e a classe trabalhadora se subdividia em lutas ideológicas” (CARONE, Edgard. A quarta República: 1945-64. São Paulo, Difel, 1984, p. VII – VIII).

 

A verticalização intensa da área central e a velocidade de seu desenvolvimento urbano eram motivo de orgulho para os paulistanos que viviam na cidade que mais crescia na América Latina.

 

A estrutura urbana tornou-se complexa com a pressão do aumento tráfego de automóveis nas áreas centrais induzindo a transformações radicais em sua malha viária.

 

Em São Paulo, as alterações urbanas decorrentes das implantações do Plano de Prestes Maia (1938-45) não podiam ser ignoradas nem subtraídas da evolução urbana dos hotéis na cidade. O alargamento de vias como as Avenidas Ipiranga, São Luís e São João foram essenciais para compreendermos a expansão da malha urbana e da localização dos novos hotéis que surgiam na cidade. O período Pós II Guerra Mundial é destaque, pois a cidade teve um grande crescimento e uma grande verticalização onde novas tipologias surgiram na cidade e configuraram novas diretrizes urbanas e arquitetônicas.

 

Com o prefeito Prestes Maia a cidade assumiu sua opção pelo rodoviarismo, implantando-se um anel de avenidas que envolveram o centro histórico e transformaram o Parque do Anhangabaú em parte de um corredor viário que cruzava a mancha urbana no sentido Norte-Sul.

 

O Rio Tietê foi retificado em seu percurso urbano e recebeu avenidas expressas em suas margens. A cidade começou também a inchar em sua periferia como resultado do intenso movimento migratório iniciado após os anos 30, principalmente dos estados do nordeste brasileiro.

 

A década de 40 marcou a passagem do Ecletismo para a Arquitetura Moderna e tem no Art Déco um subperíodo da verticalização da cidade. Esta transição deu-se pela divisão da censura estética instituída pelo Ato nº 58, de 15/01/1931, onde se recomendava um “revestimento mais rico do que a argamassa de cal e areia além de um melhor tratamento de mármore ou granito no embasamento (SOMEKH. Nádia. A cidade vertical e o urbanismo modernizador. São Paulo, Studio Nobel/ Fapesp, 1997).

 

Além das transformações construtivas e arquitetônicas, os anos 40 foram marcados pela intervenção de Prestes Maia na urbanística da cidade. O Plano de Avenidas se propôs a dar a cidade uma nova dimensão e uma escala voltada ao automóvel. A preocupação era a de dignificar à cidade a sua importância no quadro nacional. Segundo Elisabete França “a intenção inicial do Plano de Avenidas era sintetizar estudos para o sistema viário da cidade que já apresentava sinais de saturação” (FRANÇA, Elisabete. A cidade de São Paulo e o desenho de seus espaços em planos e projetos. Dissertação de Mestrado, FAU-USP; 1998, p.18).

 

No entanto, o Plano assumiu uma “intenção projetual de desenhar espaços que conformassem uma nova paisagem urbana” (Idem, ibidem, p. 18) digna da importância que a cidade assumia no cenário brasileiro e na nova mentalidade do paulista.

 

O Plano de Avenidas propunha a remodelação da área central através do alargamento de um número significativo de vias existentes acarretando um grande número de desapropriações. Surgiu na cidade uma nova hierarquia viária com novos traçados de ruas e, conseqüentemente, uma nova relação entre o lote e a edificação.

 

Naquele momento, o Urbanismo Moderno rompeu com a tradição histórica da relação entre a edificação, o lote e o traçado com as ruas. Surgiu uma nova relação entre o Espaço Público e o Espaço Privado que seria destaque em muitos projetos de hotéis que despontavam na cidade.

 

 

Os modernos hotéis da metrópole – tempo de investimento

 

Após as mudanças de lei dos anos 30/40 que estabeleceram o alargamento de importantes avenidas na cidade de São Paulo, surgiu um novo pólo do setor hoteleiro. Por ser monumental e pela nova concepção arquitetônica que se iniciava na cidade, o Hotel Excelsior (1941-1943), projeto do arquiteto Rino Levi, pontuou com destaque no skyline da Avenida Ipiranga. Os Hotéis Terminus e São Paulo também assumiram destaque neste período.

 

“Ao terminar a Municipalidade, em 1940, as obras de nivelamento e alargamento do conhecido e tradicional ‘Piques’, a transformação desse local veio a atrair, não só a atenção dos paulistanos, como a de muitos brasileiros que freqüentemente nos visitam” (In Acrópole , fev. 1943. Matéria sobre a construção do Hotel São Paulo).

 

A cidade percebeu um grande crescimento na construção de novos edifícios hoteleiros. A influência americana e o uso da indústria foram visíveis nos novos exemplares que apareciam na cidade. Surgiram, então, “novos símbolos” da era Metropolitana que encontraram no Centro Novo as bases políticas, econômicas e sociais para sua implantação. Dentre os fatores políticos de destaque, podemos salientar a Lei do Inquilinato, de 1942, que praticamente acabava com a produção destinada aos aluguéis residenciais, alterando os investimentos do setor imobiliário.

 

Como particularidade do setor hoteleiro, a década de 40 foi marco de um episódio muito importante para o desenvolvimento dos grandes hotéis. Foi o período em que foram construídos hotéis-cassino como o Parque Balneário, em Santos, o Grande Hotel de Poços de Caldas, o Grande Hotel de Araxá, o São Pedro e o Quintandinha em Petrópolis.

 

Com a proibição dos jogos de azar em 1946 por Getúlio Vargas, muitos dos grandes hotéis fecharam suas portas e muitos tiveram que reestruturar seus estabelecimentos. A cidade de São Paulo assumia uma posição de supremacia nacional. Tornava-se a locomotiva brasileira e precisava criar espaços e edifícios que simbolizassem esta posição. Desta forma, os novos hotéis que foram projetados na cidade procuravam evidenciar este destaque na nova tipologia baseada na verticalização ou na localização na malha urbana, tornando-se pontos focais na nova malha urbana.

 

Além disso, o arrojo industrial favoreceu a crescente verticalização e o dinamismo construtivo da cidade. Os novos edifícios prezavam programas modernos onde a Metrópole foi reforçada, através de programas de usos mistos, à incorporação nítida do uso da máquina nas construções e garagens grandiosas para o uso do automóvel. Eram edifícios com gabaritos elevados favorecidos por mudanças de legislações “ que permitiam um crescimento acima do gabarito máximo de 10 andares para pontos focais da cidade desde que fosse respeitado o escalonamento a partir do limite do lote” (MENDONÇA, Denise. Arquitetura metropolitana - São Paulo década de 50. Dissertação de Mestrado. EA EESC-SC, p. 74).

 

Além disso, foram favorecidos através da “Lei de Incentivo à Instalação Hoteleira lançada pela Comissão do IV Centenário que, percebendo o déficit do setor e prevendo a recepção de um número generoso de turistas por ocasião dos festejos, resolveu aprovar uma lei isentando de impostos, até 31/12/1962, os hotéis que fossem construídos e concluídos ate 25/01/1954” (MENDONÇA. Denise. Op. cit, p. 80).

 

Este é o período dos grandes investimentos na cidade. É o período em que os “locais de diversão, de passeio e de atividades esportivas se multiplicaram de forma notável” (BRUNO, Ernani Silva. História e tradições da cidade de São Paulo. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Ed., 1991, 1° vol., 4ª ed., p. 1364).

 

Intensificou-se, então, o prestígio do cinema, do lazer integrado aos grandes hotéis. O cinema se tornou a diversão principal da maioria da população “depois da supremacia do República (na praça da República), do Royal (na Sebastião Pereira) e, mais tarde, do Odeon (na Consolação) e do Paramount (na Avenida Brigadeiro Luís Antônio) – pioneiro do cinema falado” (BRUNO, Ernani Silva. Op. cit, p. 1367).

 

Em meados dos anos cinqüenta a Cidade tornou-se uma Grande Metrópole, pólo de atração muito grande, na cidade multiplicam-se os teatros, os edifícios comerciais, as industrias, a vida noturna, a boemia, os investimentos. Os automóveis e o novo Aeroporto evidenciam o crescimento e a importância de São Paulo. A Cidade adquire ares de Metrópole e deste modo, a malha hoteleira deve ser o sinônimo deste crescimento e fornecer a todos que a procuram, inovações arquitetônicas e instalações dignas das mais importantes cidades no mundo.

 

Os novos hotéis da Metrópole não irão desapontar as expectativas de São Paulo e serão destaques por décadas na malha urbana e na vida social da cidade.

 

 

Ana Carla de Castro Alves Monteiro é arquiteta (Mackenzie), historiadora (USP)

mestranda na Fau-USP, sob a orientação da Profa. Dra. Fernanda Fernandes

 
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HOSPEDARIA DO IMIGRANTE

Veja, no filme acima, um pouco sobre a Hospedaria do Imigrante, passagem obrigatória de todos os imigrantes que chegaram ao Brasil a partir da segunda metade do século 19.

 

 

Para saber mais sobre:

São Paulo, clique aqui.  
Brasil, clique aqui.  

 

 

 

 

 


Hotel Itália e Brazil, na Ladeira do Açu, hoje começo da Av. São João, 1887. Fonte: São Paulo de Piratininga: de pouso de tropas a metrópole. O Estado de S. Paulo / Terceiro Nome, 2004, p. 56

 

 


Hospedaria de Imigrantes do Estado de São Paulo. Fonte: Arquivo da Hospedaria dos Imigrantes

 

 


Hospedaria de Imigrantes. Arquivo do Estado de S. Paulo. Fonte: REIS, Nestor Goulart. São Paulo, vila cidade metrópole. São Paulo, 2004, p. 141

 

 


Hotel D'Oeste, no Largo São Bento, esquina com Rua Boa Vista, 1900. Fonte: São Paulo de Piratininga: de pouso de tropas a metrópole. O Estado de S. Paulo / Terceiro Nome, 2004, p. 92

 

 


Pension pour artistes, Avenida São João, 1920. Fonte: São Paulo de Piratininga: de pouso de tropas a metrópole. O Estado de S. Paulo / Terceiro Nome, 2004, p. 65

 

 


Grande Hotel, Rua São Bento, 1911. Fonte: A cidade da Light, 1899-1930, São Paulo, Eletropaulo, vol. 1, 1990, p. 121

 

 


Hotel Bandeirantes, Rua Mauá, anos 1960. Fonte: Cem anos Luz. Luz Station, São Paulo, Tribal Editora, 2000, p. 84

 

 


Pensão Ítalo-Brasileira, rua São Bento, 1910. Fonte: A cidade da Light, 1899-1930, São Paulo, Eletropaulo, vol. 1, 1990, p. 129

 

 


Hotel Esplanada, 27 jul. 1944. Fonte: Folha

 

 


Hotel Terminus. Fonte:
Almanaque Paulistano

 

 


Hotel de la Rotiesserie Sportsman. Fonte:
Almanaque Paulistano

 

 


Hotel Esplanada. Fonte: Almanaque Paulistano

 

 


Hotel Excelsior, Avenida Ipiranga. Fonte: Acervo Digital Rino Levi – FAU PUC-Campinas

 

 


Hotel Excelsior, Avenida Ipiranga. Fonte: Acervo Digital Rino Levi – FAU PUC-Campinas

 

 


Hotel Excelsior, Avenida Ipiranga. Fonte: Acervo Digital Rino Levi – FAU PUC-Campinas

 

 


Hotel Excelsior, Avenida Ipiranga. Fonte: Acervo Digital Rino Levi – FAU PUC-Campinas

 

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Atualizado em: 02 janeiro, 2018.